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Desobedeçamos

Não tenho escrito faz um tempo. E eu gosto muito de escrever; preciso, na maioria das vezes. Mas de um tempo pra cá, que não sei exatamente quando foi, venho entrando devagar num estado de desânimo e desalento com o mundo e conosco, as pessoas que habitamos esse mundo. Me espantam a violência, o ódio, a intolerância que temos usado pra nos relacionar e meu espanto tem a ver com a nossa cegueira diante disso. Como se fosse normal ou natural ser assim, porque o tempo é pouco pra tudo, porque as pessoas são esquisitas, porque precisamos sobreviver. E aí está feita a justificativa pra colocarmos pra fora a nossa injustificável agressividade contra o que quer que seja: a demora do Uber, a ligação do telemarketing, a sexualidade alheia, a cor, a grana… Eu nunca gostei da Pollyanna, aquela do livro, porque o otimismo dela também tem uma cegueira meio estúpida, mas confesso que escolhi viver apostando no melhor lado das pessoas. E hoje, contemplando e vivendo, eu me pergunto onde foi parar esse lado.

Eu faço aquilo que amo, educando ou clinicando, e entendo que isso já me dá um enorme privilégio no correr da minha existência. Pois é, sobreviver com dignidade fazendo o que se ama é um privilégio. Ainda assim, não ando conseguindo me livrar de uma sensação de que meu estar no mundo, nesse aqui-e-agora, carrega uma dificuldade que eu ainda não tinha experimentado. Então, me recolhi da escrita, das leituras feitas por puro deleite, dos encontros prazenteiros. Eu que adoro me cercar de gente, me recolhi até das pessoas, de certa forma. Muitos silêncios de assombro fazem barulho em mim, muitas pausas de ar suspenso em que a interrogação incansável repete: o que é isso? Num mundo em franco declínio ético, num país enlaçado numa eleição inimaginável, não pára de ressoar em mim: o que pode nos salvar?

Ontem, assistindo ao filme “Desobediência”, alguma luzinha semimorta lá dentro do meu peito deu de si. A cena de abertura traz uma pregação entusiasmada de um rabino sobre o livre arbítrio, como presente da criação, e a responsabilidade pelas escolhas que dele decorrem. O filme me impeliu a escrever depois de um estio longo porque conta uma história de coragem. Na verdade, três histórias de coragem, porque cada um dos personagens principais é corajoso com o que pode. Cada um deles tem a sua coragem porque ama e porque é isso o que o amor faz com a gente, ele nos torna corajosos. No filme, por amor, os personagens têm a bravura de desobedecer. Eles não amam apenas uns aos outros, mas amam a vida, a liberdade e as escolhas, das quais falava o rabino no início da narrativa. Resta-lhes, então, a insubmissão como alforria do amor, como única possibilidade de escolher a vida e não a morte, ainda que simbólica.

Meu amor pela Gabi me faz valente. Assim também com meu amor pela minha família, pelos meus amigos. Estamos vivendo tempos em que amar é resistir e crer e, então, resisto e creio. Quero que a coragem cresça, até ficar do tamanho que sempre teve, em todos os trechos do caminho, quando eu precisei dela. Porque eu tenho amor e o mínimo que posso fazer como gratidão é soprar forte onde meu ânimo anda em brasa até que o fogo se alastre de novo e as minhas escolhas também me pareçam mais livres, insubmissas e genuínas.

Não sei se isso salva, mas é o que desejo.

@larissagma

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