Texto do Marcos Almeida* – Abril de 2020
Nossa luta não é contra o tempo, ele continua implacável. Nossa luta está na experiência do espaço que se deteriora, na arena das coisas construídas para serem eternas, mas que agora se esfarelam, evidenciando a grande desigualdade cultivada por nós, exibindo a nudez das nossas instituições, o colapso dos nossos sistemas.
Eu faço parte do grupo de pessoas privilegiadas. Impedido de viajar e exercer minha profissão de músico como a conhecíamos antes da pandemia, mas refugiado numa boa casa em Vila Velha, perto da minha família, não sinto falta de nada que esteja no mundo das coisas. Temos mais que o essencial: ainda temos tido condições de ler, escrever e pensar sobre o tempo que vivemos.
O tempo assiste o desabar das nossas obras. O vento sopra e a casa cai.
Erramos ao acreditar que protegidos no mesmo espaço estaríamos juntos. Foi na deterioração dos espaços que descobrimos um segredo: é partilhando o mesmo tempo que podemos finalmente celebrar a comunhão. Estar presente não é sobre dividir espaços comuns, idênticos, iguais; estar presente é sobre compartilhar um tempo comum.
Um vírus talvez nos faça reconhecer o óbvio: toda a humanidade vive agora o mesmo trauma ao mesmo tempo. Apenas o tempo sempre foi para todos, mas não sei quando a comunhão se tornou “habitar o espaço de alguns”.
O sol nasce para todos os viventes. Mas as obras que inventamos são para quem pode pagar. Este é o mundo das coisas, este é o espaço do nosso delírio, que devemos deixar para trás.
Pense que estou falando sobre a dinâmica das famílias debaixo do mesmo teto, mas também sobre outros ajuntamentos. Por isso não nos interessa o mesmo palco agora, mas nos interessa um ritmo comum. Agora não nos interessa onde, mas nos interessa quando. A comunhão só é possível agora, no partilhar do mesmo tempo. Nossa maior necessidade hoje não é transitar, mas transcender .
Nós tivemos que submeter o mundo das coisas, este reino do espaço e do trânsito, a uma grande paralisação. Apenas o mercado das coisas essenciais ficou aberto. Mas o tempo implacável continua o mesmo aguardando nossa decisão, esperando as nossas escolhas pós pandemia.
Foi Abraham Heschel, no chássico O Shabbat, quem disse: “o homem transcende o espaço, e o tempo transcende o homem”. Em outro momento, ele declara: “o trabalho do homem é dominar sobre o espaço e santificar o tempo”.
Como vamos dominarr sobre o mundo das coisas que construímos e agora se esfarela?
Essa é a pergunta a ser feita.
Que a gente possa encontrar a sacralidade desse tempo comum, habitando as dores dessas horas e que esse tempo comum nos inspire a transcender o desejo egoísta do reino das cosias; transgredindo, repartindo, doando!
vamos dominarr sobre o mundo das coisas que construímos e agora se esfarela?
Essa é a pergunta a ser feita.
*Marcos Almeida é músico, canta e toca lindamente