Estamos apenas na segunda aula da pós (que foi na quinta-feira, 24), mas muitas aberturas já se processam. Prof. Alexandre Marques Cabral falou sobre a fé e sobre como ela significa entrega e não somente crença. Kierkeggard trata dessa questão principalmente na obra Temor e Tremor, recuperando o mito de Abraão e Isaac. Essa é uma história localizada bem no início da Bíblia e sempre me incomodou muito porque na minha leitura de senso comum, há uma exigência moral de Deus sobre seu súdito que beira o absurdo.
Pra relembrar, Deus pede a Abraão que lhe dê Isaac em sacrifício, logo o filho esperado por tantos anos, aquele em quem repousava a própria promessa de uma descendência. Abraão sobe a montanha disposto a sacrificá-lo. Lida como eu lia, a passagem pode produzir uma imagem bastante perigosa da fé: acreditar seria obedecer sem perguntar, submeter-se a uma vontade superior, aceitar que Deus pode exigir de nós aquilo que temos de mais precioso. Mas não me parece que seja esse o Deus moralista que interessa a Kierkegaard em Temor e Tremor. O que o inquieta em Abraão é outra coisa: o que acontece conosco quando a fé já não pode se apoiar naquilo que compreendemos?
Abraão não deixa de amar Isaac e esse não e apenas um detalhe, é um fundamento da argumentação kierkegaardiana. Se ele pudesse simplesmente renunciar ao filho, aceitar sua perda e encontrar alguma paz nessa renúncia, Kierkegaard diria que teria realizado o movimento da resignação infinita. E há grandeza nisso. O cavaleiro da resignação é capaz de abrir mão daquilo que mais ama porque reconhece que não pode possuí-lo. Mas Abraão realiza um movimento ainda mais estranho: ele entrega Isaac e continua acreditando que permanecerá com Isaac. Não numa vida futura, não numa compensação espiritual, não porque outro bem lhe será concedido em troca. Abraão acredita, diz Kierkegaard, “em virtude do absurdo”.
Talvez seja justamente aí que essa história mítica diga alguma coisa surpreendentemente contemporânea sobre nós. Costumamos imaginar a entrega como uma espécie de desapego bem-sucedido. “Entregue”, dizemos, querendo dizer: aceite o que vier, não tente controlar. Como se a serenidade dependesse de diminuirmos nosso vínculo com aquilo que podemos perder. Kierkegaard parece sugerir algo muito mais difícil. Abraão entrega sem deixar de querer. Sua fé não nasce da indiferença em relação ao desfecho, mas permanece justamente porque ele está radicalmente implicado nele.
Poderíamos dizer, a partir do que Kierkegaard defende (e do que Prof. Alexandre muito bem traduziu na sua aula) que entregar não é deixar de amar aquilo que entregamos. É reconhecer que amar alguma coisa não nos concede o poder de garantir sua permanência.
É nesse sentido que a fé, em Kierkegaard, tem pouco a ver com tranquilidade. Abraão não recebe garantias. Não conhece antecipadamente o carneiro que aparecerá no lugar de Isaac. Se soubesse que tudo terminaria bem, não precisaríamos falar de fé: bastaria falar de informação. A fé começa precisamente onde a garantia termina. E é por isso que ela convive tão intimamente com a angústia. Não porque acreditar seja viver atormentado, mas porque confiar significa continuar vinculado quando já não temos domínio sobre aquilo que acontecerá.
Há algo dessa experiência também fora da religião. Amamos pessoas que não podemos impedir que partam. Criamos filhos cujas escolhas não poderemos determinar. Construímos relações sem qualquer garantia de duração. Escolhemos profissões, projetos, cidades, amizades, sabendo — ou tentando esquecer — que nada disso nos pertence definitivamente. Grande parte do nosso sofrimento talvez venha da tentativa de transformar vínculo em garantia: porque amo, preciso assegurar; porque desejo, preciso controlar; porque me importa, preciso saber como terminará.
No meu entendimento, Abraão nos confronta justamente com o limite dessa pretensão. Fé, sob essa perspectiva, não seria acreditar que tudo acontecerá como desejamos. Tampouco seria treinar uma resignação elegante diante da possibilidade da perda. Seria sustentar uma relação mesmo quando já não podemos exigir dela a segurança de um resultado.
Isso ajuda a compreender por que Kierkegaard distingue tão radicalmente a fé de uma simples crença religiosa. Dizer que acreditamos em Deus pode ser relativamente fácil. Existir na fé é outra coisa: é admitir que há uma dimensão da existência que não conseguimos transformar inteiramente em cálculo, explicação ou garantia. O cavaleiro da fé não domina o futuro. Ele continua caminhando apesar disso.
Abraão desce a montanha com Isaac. Talvez seja essa a imagem mais bonita de Temor e Tremor: ele não precisou deixar de amar o mundo para encontrar Deus. Depois de tocar o absoluto, retorna ao finito. Retorna ao filho, à casa, à vida comum. Abraão ama profundamente sem transformar o amor numa promessa de que nada nos será tirado. A lição que aprendi a ver com Kierkegaaard, então, a partir desse mito, não é sobre obediência, resignação, ou sobre o sadismo de Deus. É sobre a fé como uma entrega sem garantia, mas ainda vinculada, ainda amante. Poesia pura.
Larissa Abrão