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É POSSÍVEL NÃO PARTICIPAR? OUÇAMOS O ESTRANGEIRO.

Difícil não falar dos acontecimentos eleitorais de domingo, quando 33 milhões de pessoas deixaram de comparecer às urnas, mas registraram sua mensagem. Pra mim, o sentimento crescente no país é o da anti-política, talvez mais ascendente do que o anti-bolsonarismo ou o anti-petismo. Isso coloca nossa democracia, já fragilizada, em maior perigo ainda.

Como metáfora desse perigo, escolhi falar sobre Meursault, protagonista de O Estrangeiro, de Albert Camus. O personagem parece atravessar boa parte da vida sob o signo do “tanto faz”. Diante da possibilidade de casar-se, mudar de emprego, alterar os rumos da própria existência, ele não demonstra grande entusiasmo nem recusa. As coisas acontecem e Meursault parece não aderir inteiramente a elas, como se ele fosse, no fim das contas, um estrangeiro de si mesmo. Há algo profundamente perturbador nesse personagem porque ele nos faz perguntar se é possível passar pelo mundo sem tomar parte nele.

Evidentemente, uma ausência eleitoral pode ter muitas razões: doença, distância, impedimentos concretos, mas também desencanto, cansaço, descrença, recusa. Seria grosseiro colocar experiências tão diferentes sob o rótulo fácil da alienação. Interessa-me outra coisa que talvez nos leve a uma discussão existencial, proposta li no título: é possível não participar?

Eu falo bastante sobre questões ligadas à política, e pelas respostas com as quais lido muitas vezes, sei que uma das fantasias mais persistentes em torno da política é a de que podemos permanecer fora dela. “Não gosto de política”, “não quero me envolver”, “nenhum deles me representa” parecem delimitar uma espécie de território neutro no qual poderíamos cuidar da nossa vida enquanto os outros resolvem essas coisas. O problema é que continuaremos vivendo sob as decisões tomadas nesse campo: elas chegarão ao nosso trabalho, aos impostos, à escola dos nossos filhos, aos nossos corpos, direitos, relações e possibilidades de futuro.

Podemos até tentar nos retirar da política, mas a política não se retira de nós. Há alguma coisa da noção de campo, tão cara à Gestalt-terapia, que ajuda a compreender isso. Num campo, presença e ausência produzem configurações. Uma cadeira vazia numa reunião participa daquela reunião; o silêncio diante de uma discussão modifica o que pode acontecer nela; aquilo que deixamos de fazer também integra as condições nas quais os outros agirão. Isso não significa que omissão e ação deliberada sejam equivalentes, mas significa que não agir não nos coloca fora das consequências.

E aqui nesse ponto, preciso dizer que me interessa menos julgar quem se ausenta do que compreender o que produz tantas ausências. Há um cansaço político evidente entre nós. Há pessoas descrentes, decepcionadas, exauridas pela repetição de escândalos, de narrativas que exalam baixaria e incapazes de reconhecer qualquer horizonte desejável. Confesso que eu também me encho desse desânimo, muitas, muitas vezes. Por isso, entendo que retirar o investimento é também uma maneira de dizer alguma coisa. O problema é que não controlamos o significado nem os efeitos da nossa retirada.

Meursault talvez nos ajude justamente porque seu “tanto faz” nunca o coloca fora do mundo. Enquanto ele parece não atribuir sentido às coisas, as coisas continuam produzindo consequências ao redor dele — e sobre ele.

Talvez aconteça algo semelhante conosco. Posso não me interessar por determinada decisão coletiva, não votar, não acompanhar o debate, não querer conversar sobre ele. Mas continuo vivendo no mundo configurado por essas decisões. Ou seja, não podemos escolher que nossa ausência não conte. Advogo, incondicionalmente, pelo exercício pleno das muitas maneiras de estar no mundo. Mas é uma fantasia crer que seja possível estar fora dele.

Larissa Abrão

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