É PRECISO DAR UM JEITO, MEU AMIGO

É PRECISO DAR UM JEITO, MEU AMIGO

Eu cheguei de muito longe

E a viagem foi tão longa

E na minha caminhada

Obstáculos na estrada, mas enfim aqui estou

Mas estou envergonhado

Com as coisas que eu vi

Mas não vou ficar calado

No conforto acomodado como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso dar um jeito, meu amigo

Descansar não adianta

Quando a gente se levanta quanta coisa aconteceu

As crianças são levadas pela mão de gente grande

Quem me trouxe até agora

Me deixou e foi embora como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso dar um jeito, meu amigo

Descansar não adianta

Quando a gente se levanta quanta coisa aconteceu

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso sim

É preciso

É preciso dar um jeito

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso sim

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso sim

É preciso sim

É preciso sim

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso sim

É preciso sim

É preciso dar um jeito

É preciso sim

Meu amigo, meu amigo

 (Compositores: Erasmo Carlos e Roberto Carlos)

Tenho escutado com alguma frequência, na clínica e fora dela, pessoas cansadas do Brasil. Não exatamente desinteressadas da política. Cansadas. Cansadas de indignar-se, de acompanhar notícias, de ver ideias que julgávamos suficientemente desmoralizadas retornarem ao debate público como alternativas perfeitamente aceitáveis. Cansadas de assistir à violência converter-se em bravata, à ignorância em autenticidade, à mediocridade em projeto político.

E há alguma coisa perigosa nesse cansaço. Penso nisso ao ouvir É preciso dar um jeito, meu amigo, de Roberto e Erasmo Carlos, escolhida como tema do filme Ainda Estou Aqui. A canção é de 1971, composta em plena ditadura militar, quando havia razões muito concretas para acreditar que o horizonte estava fechado. Ainda assim, há nela uma recusa fundamental: não se acomodar. E embora eu também esteja exausta, não há como escapar de pensar que é disso que ainda precisamos, já que a luta urge.

Claro que nossa situação não é a mesma de 1971. Mas aqui também, cinquenta e cinco anos depois, estamos experimentando um afunilamento do horizonte. O avanço da extrema-direita, sua permanência como força eleitoral e, particularmente, a pobreza política e intelectual de parte daqueles que se apresentam para governar o país podem produzir uma sensação devastadora: é isso que temos. É entre isso e aquilo. As campanhas parecem um manancial de mentiras e, ao fim e ao cabo, dormimos com o gosto da inescrupulosidade repetida, da falta de novidades no modo contemporâneo de apresentar política e de fazê-la acontecer (ou não acontecer, na verdade).

E, como temos discutido, quando o futuro perde possibilidades, o presente pesa. Na clínica, conhecemos bem esse fenômeno. Há sofrimentos em que a pessoa não consegue imaginar uma vida diferente daquela que está vivendo. Não é que ela tenha examinado todas as possibilidades e concluído que nenhuma existe. É que já não consegue vê-las. O horizonte se contraiu. O que me ocorre é também adoecemos politicamente assim.

O pessimismo reiterado pode produzir uma espécie de exaustão antecipatória. Já sabemos que “não vai adiantar”, que “político é tudo igual”, que “nada muda”. E, curiosamente, aquilo que parece lucidez pode começar a funcionar como acomodação. Se nada pode acontecer, nada me convoca a agir.

É nesse ponto que a canção me parece tão contemporânea. “Dar um jeito” não precisa significar possuir a solução. Há algo até mais humilde nessa expressão. Dar um jeito é agir quando ainda não sabemos exatamente qual será a saída. É recusar a ideia de que o mundo que se apresenta diante de nós esgota todos os mundos possíveis.

A resistência depende também dessa capacidade de sustentar horizonte. Não de um otimismo ingênuo, que negue a gravidade do que vemos. Esperança não é acreditar que tudo dará certo. É preservar, mesmo diante de um campo adverso, alguma abertura para aquilo que ainda pode acontecer — e reconhecer nossa participação nisso.

O que creio é que há uma diferença política enorme entre dizer “está tudo perdido” e dizer “não sei como sairemos daqui”. Na segunda frase, ainda existe futuro. Acho que quando canta, Erasmo consegue nos alcançar por esse motivo, porque proclama a chance de um futuro.

Sim, meu amigo, estamos exaustos. Mas é preciso acreditar que haveremos de produzir um jeito.

Larissa Abrão

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