Eu e Gabi acabamos de terminar uma série intitulada Habeas Corpus, exibida na Netflix. No primeiro episódio, vemos uma advogada criminalista atuando num tribunal do júri, de um lado, e, de outro, uma mulher acusada e uma menina de uns 15 anos carregando no colo um bebê e tentando soltar essa mulher, que é sua mãe, por sua vez presa e acusada de tentar pôr fogo na fazenda onde morava.
Há outros envolvidos na história, que tem um ótimo desenrolar e o diretor faz questão de mostrar aspectos bastante honestos dos personagens, incluindo suas ambiguidades. Uma das personagens não é isenta e tem interesses pessoais no projeto de incitar a advogada (Estiano) a uma retomada na prática jurídica. Até porque, tem ela própria, Estiano, uma “resolução” a tratar, sobre o trauma de ter sido vítima de tiro na corte. E assim seguem todos, cada qual com suas contradições.
Um dos personagens mais interessantes é Jonathan, sentado no banco dos réus e forçado a contar uma versão auto-incriminatória, que mais tarde saberemos ter sido obtida sob tortura. Já nos episódios finais, ele diz uma frase instigadora: “quando tiram o mundo de você, tiram também quem você é.” Em toda a série, que trata da Justiça e do sistema judiciário como um todo, essa foi uma das formulações mais contundentes sobre a experiência da injustiça. Porque perder o mundo não significa apenas perder aquilo que possuímos. Significa também perder as condições nas quais reconhecíamos nossa própria existência.
A série acompanha personagens cujas vidas foram profundamente afetadas pela violência, pela desigualdade e pelas contradições do sistema de Justiça. Como eu disse, nos momentos iniciais temos uma adolescente que, carregando um bebê consigo, tenta libertar a mãe presa. Também no protagonismo da obra, vimos uma advogada afastada da prática jurídica depois de sofrer uma experiência traumática; e outras pessoas que se aproximam dessas histórias movidas por razões nem sempre nobres ou desinteressadas. Gosto especialmente dessa fidedignidade com a “vida real”: ninguém precisa ser santo para fazer alguma coisa importante na vida de alguém.
Mas volto à frase de Jonathan. Estamos habituados a pensar a identidade como um conjunto de características pessoais: nosso temperamento, nossos valores, nossas lembranças, aquilo que acreditamos ser. A fenomenologia nos convida a desconfiar dessa imagem de um sujeito que existiria pronto, independentemente do mundo. Não somos primeiro alguém para depois estabelecer relações. É nas relações, nos lugares que habitamos, nas atividades que realizamos e nos horizontes que conseguimos imaginar que vamos nos constituindo.
Quando alguém é injustamente privado de sua liberdade, portanto, não perde apenas o direito de circular. Perde o convívio cotidiano, a participação na vida familiar, o trabalho, a possibilidade de acompanhar o crescimento dos filhos, de realizar projetos e de reconhecer-se nas pequenas continuidades que sustentavam sua existência. O mundo prossegue sem sua participação, mas a pessoa não segue sendo a mesma sem a participação do mundo.
Na clínica, essa questão também aparece quando alguém perde um relacionamento, uma profissão, uma condição de saúde ou um lugar de pertencimento. Muitas vezes, o sofrimento não está apenas naquilo que desapareceu, mas na dificuldade de continuar reconhecendo quem se é depois da perda. O mundo que sustentava determinada maneira de existir já não está disponível, e ainda não sabemos como habitar aquele que restou.
Acho que esse é dos motivos pelos quais a frase de Jonathan realmente ficou na minha cabeça: não podemos separar inteiramente uma pessoa do mundo que lhe foi retirado. Talvez porque não exista, afinal, um “eu” que possa ser preservado intacto, independentemente dos vínculos, dos lugares, das histórias e das possibilidades que constituem sua existência. É por isso que a fenomenologia insiste tanto na intersubjetividade: não somos consciências solitárias, encerradas em nós mesmas, que posteriormente encontram outras pessoas e um mundo. Já existimos em relação, atravessados por uma mundanidade que não é circunstância acessória, mas condição constitutiva do nosso ser.
Quando o mundo se desorganiza, não é apenas o cenário da nossa vida que se transforma. Somos nós que, inevitavelmente, também nos transformamos. Talvez a frase de Jonathan nos perturbe tanto porque revela justamente isso: não há um eu a salvo do mundo, porque nunca houve um eu fora dele.
Larissa Abrão