SER OU NÃO SER: O HAMLET CONTEMPORÂNEO É SARTREANO

Poucas frases sobreviveram tanto à obra que as produziu quanto o “ser ou não ser” de Hamlet. Nós a repetimos diante de escolhas banais, fazemos piadas, estampamos camisetas e canecas. Mas a pergunta que Shakespeare coloca na boca de Hamlet não tem nada de banal: diante de uma existência atravessada pela dor, pela traição e pela violência, ele se pergunta se é melhor continuar suportando aquilo que a vida lhe apresenta ou interrompê-la. Talvez a frase continue nos alcançando justamente porque, mesmo quando não estamos falando literalmente de vida e morte, há decisões nas quais escolher uma possibilidade significa deixar morrer outras.

Decidir é uma palavra curiosa. Sua origem latina, decidere, carrega a ideia de cortar, separar. Talvez tenhamos nos esquecido um pouco disso numa época que gosta de nos oferecer escolhas como se fossem cardápios: escolha sua carreira, seu relacionamento, sua cidade, sua melhor versão. Como se escolher fosse apenas identificar, entre várias possibilidades, aquela que nos fará mais felizes.

Na verdade, as decisões importantes raramente são assim e talvez isso diga muito sobre as decisões realmente difíceis. Às vezes amamos alguém e precisamos partir; permanecemos e sabemos o que essa permanência nos custará; aceitamos um trabalho e abandonamos outro caminho; dizemos um não que decepcionará alguém ou um sim que nos comprometerá por anos. Nessas horas, gostaríamos de descobrir qual é a escolha certa, aquela que nos devolverá ao futuro sem perdas. Mas algumas decisões não oferecem essa possibilidade: qualquer caminho modifica a paisagem.

É nesse ponto que Hamlet me faz pensar em Sartre. Para ele, a liberdade está bem longe dessa coisa leve e desejável que a palavra costuma sugerir. Somos livres porque, diante das situações concretas em que estamos lançados, precisamos nos posicionar. Evidentemente, não escolhemos todas as condições da nossa existência: não escolhemos onde nascemos, muitos acontecimentos que nos atravessam ou aquilo que os outros fazem conosco. Ainda assim, precisamos fazer alguma coisa com aquilo que nos acontece — e mesmo adiar, silenciar, permanecer ou deixar que alguém decida por nós produz consequências.

É possível que, por esta razão, o processo de decidir se torne tão exaustivo. Porque além de nos gerar uma responsabilidade por suas consequências, tomar decisões é um ato sem garantias. E, claro, gostaríamos de garantias antes de escolher porque gostaríamos de saber quem seremos depois. Queremos ter certeza de que o relacionamento que terminamos realmente não poderia ter sido salvo, de que a mudança profissional dará certo, de que não nos arrependeremos. Mas essa garantia só poderia vir de um futuro que ainda não existe. A angústia, então, talvez não seja sinal de que ainda não encontramos a resposta certa; pode ser justamente a experiência de perceber que nenhuma resposta virá pronta.

É aqui, então, que a ideia sartreana de engajamento ganha força. Escolher não é apenas indicar uma preferência entre alternativas, mas comprometermo-nos com aquilo que fazemos e com o mundo que nossas ações ajudam a produzir. Responsabilidade, nesse caso, não significa auto culpabilização, como se fôssemos autores de todas as circunstâncias que nos cercam. Significa reconhecer a parte que nos cabe naquilo que fazemos a partir delas.

Quero enfatizar o cuidado com essa nuance da tese de Sartre, já que ele é frequentemente vulgarizado naquela fórmula de que “somos responsáveis por tudo” e acho que aqui precisa ficar claro que, para ele, liberdade é sempre liberdade em situação. Acho importante que esse aspecto seja frisado para que não escorreguemos para aquele discurso contemporâneo de “você escolhe a vida que tem”, que seria praticamente o contrário do que queremos dizer.

Isso posto, vou entendendo que amadurecer diz menos sobre sempre tomar boas decisões e mais sobre desistir da fantasia de que existe, escondida em algum lugar, uma escolha capaz de nos poupar de toda perda. Seria mais interessante, no fim das contas, começarmos a fazer uma pergunta menos confortável: diante das possibilidades que realmente temos, por qual delas estamos dispostos a responder?

Hamlet nos legou a pergunta. Sartre talvez acrescente outra inquietação: depois de escolher, será preciso viver a vida que nossa escolha tornou possível.

Larissa Abrão

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