Conheci Daniel em Buritama, num rancho, em Outubro de 2016 e talvez nunca mais torne a vê-lo. Era um menino de 14 anos, pescador, filho de pescador, corpo queimado do sol, cabelos despenteados. Guiou-nos pela escuridão da noite e do rio; ele era amigo das águas e dos peixes. Segurava a lanterna como quem empunhava uma arma e, em pé, da proa, dava as ordens para a direção do barco, mantendo o corpo magro firme apesar do vento.
Enquanto a gente pescava, ele me perguntou de onde eu era e o que fazia. Daniel não sabia onde ficava Minas Gerais, nem o que fazia uma psicóloga. Era o mais pobre de dinheiro de todos nós e talvez nunca tenha saído da cidade onde nasceu ou de perto daquele rio. Depois de algumas horas, nos levou de volta para terra firme. Saí da água com um frio feliz, abraçando a noite pra me esquentar, com o coração grato pelos meus companheiros de viagem que me ofereceram uma paternidade generosa e especialmente grata por ter conhecido Daniel. Estávamos felizes e ele orgulhoso pelo trajeto.
A vida daquele menino me pareceu ingenuamente simples e, talvez por isso, ele seja o mais rico de todos nós – pelo menos por mais algum tempo. Talvez ele ainda não saiba o porquê de ter que sair da cama toda madrugada para lançar rede, nem tenha descoberto que os dez ou vinte reais com os quais o havia lhe presenteado não compram muita coisa.
Pensando bem, talvez o meu texto seja sobre o Natal.
@gabifrancoal

Linda história!!!