(Larissa Abrão)
Ferdinando engoliu em seco. O homem falava direto com ele, sem escalas. Todo o pessoal reunido olhando pra sua cara de pateta e ele tentando cuspir da boca o veneno que conhecia tanto.
– Senhor Ferdinando?
Dizer o que, seu moço? Se fosse dizer a verdade, a verdade mesmo, como de costume, cairia fulminado pela própria sinceridade sem par. A mãe, por exemplo, era uma que o vivia reprimindo desde pequeno pra não despejar verdades nos outros desavisadamente. Não são todos que superam uma verdade bem colocada. Alguns não se recuperam nem em uma vida inteira.
A Dona Carlota, por exemplo, professora de ginásio. Carinhosa, boa, tímida, chamava a atenção dos alunos bem baixinho, no pé do ouvido, pra não constranger ninguém.
– Professora, a senhora já olhou esse problema do seu mau-hálito? Não, eu falo para o seu bem, é que a minha mãe tem uma prima bafuda e foi ver, o negócio era sério, estomacal. Teve até que tomar remédio. Se a senhora quiser, eu pergunto o nome.
Ela deve ter procurado ajuda, porque sumiu da escola, dizem até que saiu da cidade. O problema devia ser mesmo estomacal. E sério.
Sempre foi homem de franquezas. E fazia questão que fossem francos com ele também, pelo menos assim justificava os ferimentos aplicados a esmo. Levava fama de grosso e se indignava – o preço da sinceridade, que ele pagava com prazer. Mais do que estilo, sua franqueza era uma necessidade. Não só alertar, precisava ajudar as pessoas. Era sua missão
Quando adolescente, dizia para as namoradas que elas deviam aprender a beijar e ensinava as técnicas, detalhadamente, desenhadas numa folha de papel.
– Olha aqui, tá vendo esse esquema? Isso é uma boca humana. Aqui, ó, é a língua. Ela pode fazer qualquer tipo de movimento, percebe? Você não precisa ficar limitada aos movimentos laterais. Além disso, é preciso ter cuidado com o chamado beijo chupão, você pode arrancar a língua de alguém. Ah, e essas gotas aqui, eu desenhei pra você se lembrar de controlar melhor sua salivação.
– …
– Não, não vai chorar. Eu só falo isso para o seu bem. Ai, meu Deus, mais uma sensível.
Nem é necessário dizer o quanto duravam os namoros. E os amigos e os empregos… Só resistiam mesmo os parentes, por uma obrigação genética.
– Tia Berenice, que gordura é essa? Tá parecendo a Vó Turíbia quando morreu de ataque de diabetes, lembra? Ai, mãe! Não me cutuca! A senhora acha que a Tia Berenice se importa? Eu falo pro bem dela, não sou de dizer nada pelas costas. O que eu tenho que falar, falo na cara, viu, Tia Berenice.?
Sincero, verdadeiro, incompreendido. Às vezes até odiado, como todas as grandes personalidades do mundo. Um colega de escritório, por exemplo, chegou a exigir sua demissão só por causa de uma de suas honestidades.
– Já conhece a Vilma, Ferdinando?
– Claro, sua mãe, né? O Sinésio fala muito da senhora.
– A Vilma é minha mulher, Ferdinando.
– Jura?! Velha assim? Foi doença? Olha, eu tive uma tia que morreu sem mais nem menos. Começou a envelhecer, envelhecer e quando se deu conta, era uma doença horrível, degenerativa, acabou com ela em menos de dois anos. Eu tenho o endereço do médico, se vocês quiserem.
Decididamente, o mundo era dos falsos, mas ele não se abatia. Era um lutador incorrigível na defesa da verdade. Foi assim que Ferdinando se definiu quando começou a namorar Vanusa. Avisou a ela que as pessoas nunca entendiam sua real intenção ao ser franco. Tudo o que fazia era para o próprio bem dos envolvidos, não importando quem fosse. Até seu médico carecia de ajuda, por que não?
– Dr. Gerarmino, esse seu cecê é disfunção glandular? Igual ao seu, que eu já tenha visto, só o cecê do Osvânio, um pedreiro que trabalhou lá em casa, e o dele era disfunção, foi preciso operar. Claro, o senhor é médico, deve saber, mas eu só estou falando porque, às vezes, nem o dono do cecê percebe que tem, entende?
Ele acreditava num mundo melhor, onde as pessoas enxergassem seus defeitos sem hipocrisias. Só assim há crescimento. Vanusa concordava. Achou bonita aquela conversa de sinceridade, era a melhor qualidade que um homem poderia ter. Principalmente ela, enganada sempre tão facilmente pelas mentes maquiavélicas e infiéis dos homens com quem andava. Ferdinando seria o par perfeito, ela pensou. Só não pensou que junto com a notória franqueza do homem ideal viria a infinita indelicadeza praticada contra sua alma frágil.
– Horrível, Vanusa. Eu já te falei que você não fica bem de vermelho. Não combina com essa sua cor meio parda. O melhor que você faz é parecer discreta. Põe uma coisinha bege, conjuntinho de saia e blusa, maquiagem suave. Na base pode carregar pra esconder as espinhas, mas no resto, meu bem, tons pastéis. Você me conhece, né, amorzinho? Tô falando para o seu próprio bem.
Claro, ela sabia. Cedia às opiniões do namorado honesto. Era melhor assim do que arriscar-se com alguém gentil, que poderia trocá-la sem aviso prévio. E depois, ela acabaria se acostumando com o jeito dele, pelo menos sabia que se casariam mesmo, um dia. Ele prometera. Em palavra de homem franco, ela poderia confiar. No Dia dos Pais, levou Ferdinando pra conhecer o futuro sogro. Ela sabia que o pai não duraria muito, doença ruim no intestino.
– Foi um prazer conhecê-lo, senhor Leocádio. Pena que o senhor não deve presenciar nosso casamento, né? A Vanusa não me disse que o senhor já estava em fase terminal.
Silêncio sepulcral.
– Eu até aconselharia a procurar logo um bom advogado pra ver a questão do testamento. Coisa assim é melhor já deixar ajeitada pra não dar briga. Na minha família foi um horror, morreu um tio industrial e deu até morte entre os irmãos depois que o velho bateu as botas. Eu conheço um advogado ótimo, se o senhor quiser.
Franqueza, fazer o quê? Ferdinando era assim.
Marcaram o casamento. Ele radiante, palpitou em todos os detalhes, da festa à decoração da Igreja. Da cor do vestido da noiva até o penteado da futura sogra. Tudo sairia como ele planejou. Seu bom-gosto reinaria, soberano, em todos os pedacinhos do casamento. Terno impecável, cabelo em absoluta ordem e ele ao pé do altar, magnífico.
– Senhor Ferdinando? O senhor não entendeu? Sua noiva não vem mais. Não adianta esperar, o senhor não leu o bilhete?
“Caro Ferdinando, não vou poder ir ao nosso casamento, estou com alguém bem melhor que você. Obrigada por ter me ensinado as maravilhas da franqueza. Finalmente compreendi que devemos falar tudo o que pensamos sobre as pessoas. Por isso, devo te dizer que sua performance na cama foi uma das piores que já vi: você tem ejaculação precoce, excesso de salivação e acha que conhece as possibilidades da língua, mas não, não conhece. E além de tudo, não corta a unha do pé. Falo para o seu próprio bem, claro. Cordialmente, Vanusa.”
Ao pé do altar, magnífico. Um homem e sua estupidez.