Manuel Bandeira e seu paraíso fictício nunca me apareceram como um desejo compartilhado com o poeta, porque eu ainda não havia me sentido geograficamente infeliz. Até agora. Vou-me embora pra Pasárgada, nesse momento, parece menos uma fantasia literária e mais uma vontade mal contida. Talvez você também esteja sentindo isso por acompanhar o debate político brasileiro. Continuamos em casa, reconhecemos as ruas, cumprimos nossos horários, mas alguma coisa se torna estrangeira. Como se o país onde vivemos já não oferecesse lugar para aquilo que consideramos indispensável à vida em comum.
No poema, a partida ganha sentido diante de uma constatação: “Aqui eu não sou feliz”. Pasárgada reúne experiências que o lugar presente parece negar: prazer, liberdade, aventuras, companhia. Podemos ler esse deslocamento à luz da espacialidade existencial: habitamos lugares a partir das possibilidades que encontramos neles. Uma casa pode acolher ou aprisionar; uma cidade pode favorecer encontros ou nos fazer sentir permanentemente ameaçados. O espaço vivido tem a dimensão das nossas relações.
É por isso que o contexto político pode alcançar nossa intimidade sem pedir licença. Ter de disputar votos diante de uma candidatura marcada por relações documentadas com figuras ligadas à milícia e por investigações sobre suspeitas de corrupção produz um cansaço difícil de nomear. Somam-se a isso notícias sobre uma suposta rede de exploração sexual de refugiadas envolvendo personagens com trânsito entre autoridades. São fatos e acusações de naturezas distintas, mas sua presença no horizonte público pode alimentar uma mesma pergunta: como continuar reconhecendo este mundo como nosso?
Esse “despertencimento” pode aparecer como irritação, desalento, vontade de se recolher ou incapacidade de imaginar um futuro aqui. Para quem escuta clinicamente, interessa perceber como a experiência singular é atravessada por condições compartilhadas. Quando alguém diz que já não suporta viver neste país, vale perguntar o que se tornou insuportável: quais vínculos foram abalados, quais expectativas perderam sustentação, que formas de vida parecem ameaçadas? Há sofrimentos cuja compreensão exige olhar para o mundo que estamos oferecendo uns aos outros.
Pasárgada, porém, também contém uma ambiguidade: ali, a garantia de uma vida possível passa pela amizade com o rei. O refúgio imaginado guarda seus privilégios. Essa tensão nos acompanha quando desejamos encontrar um lugar protegido da brutalidade: quem pode partir, quem consegue se resguardar e quem permanece exposto? Nosso desejo de abrigo merece acolhimento, mas também pode abrir uma reflexão sobre as condições que tornam o abrigo acessível a alguns e tão precário para outros.
Pode ser que a vontade de ir embora nos ajude a reconhecer o que está faltando para permanecer. Pertencer envolve poder aparecer, amar, circular e participar sem sentir que a própria existência está sob ameaça. Disputar os rumos do país também é disputar essas possibilidades. E há dias em que sustentar uma conversa, um encontro ou um voto exige justamente isso: tentar devolver ao chão onde estamos alguma condição de ser habitado.
Larissa Abrão
P.S.: Eis a íntegra do poema:
Vou-me embora pra Pasárgada [Manuel Bandeira]
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Publicado na obra Libertinagem (1930)