A DEMOCRACIA E O DIREITO DE EXISTIR NO MUNDO

Lula venceu. Contra tudo, contra muitas das instituições que hoje regulam nossa vida coletiva, como Meta, as companhias de inteligências generativas e até o Poder Judiciário. Foi grandioso, ainda que nem todo o país já tenha condições de compreender a dimensão do que se viveu por aqui. Mas a vitória de Lula não tange apenas ao feito em si. Ela oferece mais do que a oportunidade de comemorar um resultado eleitoral e convida-nos, de fato, a pensar sobre as condições de existência que uma sociedade produz e sobre aquilo que se torna possível quando determinados projetos políticos são derrotados. Afinal, a democracia não se limita à organização institucional do poder: ela diz respeito, também, às possibilidades de coexistência, reconhecimento e expressão daqueles que compartilham um mundo.

A fenomenologia crítica, em diálogo com Merleau-Ponty, nos oferece uma perspectiva particularmente fecunda para essa reflexão. Como discute Monica Botelho Alvim, no texto O Estético-Político em Merleau-Ponty e a Fenomenologia Crítica: Notas Preliminares sobre Relações Raciais, nossa experiência não acontece em um mundo neutro, tampouco é constituída exclusivamente pela consciência individual. Vivemos imersos em estruturas históricas de sentido que organizam nossas maneiras de perceber, sentir e nos relacionar. Raça, gênero e classe não são, portanto, circunstâncias exteriores à existência: participam das condições concretas pelas quais determinados corpos encontram acolhimento, reconhecimento ou interdição.

Há, nessa discussão, uma distinção que considero especialmente importante: aquela entre silêncio e silenciamento. O silêncio, em Merleau-Ponty, não corresponde simplesmente à ausência de palavras, mas à dimensão ainda não expressa da experiência, àquilo que permanece como possibilidade de criação de sentidos. O silenciamento, ao contrário, é uma operação política: produz invisibilidades, naturaliza hierarquias e impede que determinadas experiências encontrem legitimidade no mundo compartilhado. Enquanto o primeiro abriga possibilidades de expressão, o segundo trabalha para interditá-las. E isso, estamos vendo, valeu aqui nesse cantinho do mundo para antes das eleições e para depois delas. Agora mesmo, estamos vendo uma enxurrada de ódio vingativo propondo silenciamento e destruição de comércios e serviços que se posicionaram contra o candidato reacionário. A ideia, como diria Merleau-Ponty, seria boicotá-los até torná-los invisíveis.

É nesse ponto que a democracia adquire uma dimensão existencial. Um projeto político autoritário não ameaça apenas instituições; pode também restringir horizontes de existência, ao estabelecer quais vidas merecem reconhecimento e quais devem permanecer à margem. A vitória eleitoral de um projeto comprometido com a ampliação de direitos pode representar, nesse sentido, uma abertura histórica. Não porque uma eleição desfaça as estruturas de dominação, mas porque a história, como compreende Merleau-Ponty, não está concluída: constitui-se na retomada, na transformação e na instituição coletiva de novos sentidos.

Aí está uma das tarefas mais importantes de uma Psicologia comprometida com a fenomenologia crítica: compreender que o sofrimento não se produz apenas na interioridade dos indivíduos, mas também nas condições históricas que sustentam ou restringem suas possibilidades de existir. Celebrar a democracia, portanto, não significa imaginar que chegamos a algum lugar definitivo. Significa reconhecer que ainda podemos disputar os sentidos do mundo que compartilhamos. Quero crer que uma sociedade verdadeiramente democrática não é apenas aquela em que todos podem votar, mas aquela em que ninguém precisa desaparecer para que outros possam existir.

Larissa Abrão

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