Ontem, no grupo de estudos da LAHFE (Liga Acadêmica de Horizontes Fenomenológico-existenciais), que eu coordeno dentro da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais), tivemos uma ótima discussão sobre o conto “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, e eu gostaria de compartilhar com vocês algumas de nossas reflexões. O conto aparece no livro de estreia do autor, “Sagarana”, publicado originalmente em 1946.
O personagem central, Augusto Esteves (ou Matraga, que “não é nada”, como coloca o narrador já na primeira linha do texto), é um sertanejo rude, arrogante, que vai ser traído por seus sex-capangas num evento que divide sua vida em antes e depois. Para pensar a história desse personagem talvez seja preciso suspender, ao menos por um momento, a tentação de lê-la apenas como uma narrativa de redenção moral. O que se desenha ao longo de sua trajetória é menos uma conversão linear e mais uma travessia existencial marcada por um esvaziamento radical de si.
Quando encontramos Matraga ainda como Nhô Augusto, o que está em jogo não é exatamente uma identidade sólida, mas uma espécie de caricatura de masculinidade: potência, mando, violência, honra. Trata-se de uma forma de ser que se sustenta mais pela exterioridade — pelo olhar do outro, pelo reconhecimento social — do que por uma apropriação autêntica de si. Aqui, a fenomenologia-existencial, especialmente em diálogo com Martin Heidegger, nos ajuda a compreender esse modo de existir como um ser-no-mundo capturado pelo impessoal, pelo se (das Man). Nhô Augusto é aquilo que “se espera” de um homem em seu contexto: um senhor violento, temido, viril. Sua identidade é, portanto, menos escolhida do que herdada e reiterada.
A queda — violenta, corporal, quase animal — inaugura uma ruptura decisiva. Ao ser espancado e abandonado à morte, Matraga é arrancado dessa trama de reconhecimentos que o sustentava. É nesse ponto que o vazio emerge não como ausência simples, mas como desfundamentação. Ele já não pode ser o que era, mas tampouco sabe o que pode vir a ser. Há aqui algo muito próximo da experiência de angústia tal como pensada por Heidegger: um desvelamento do nada de fundamentos que sustentavam o existir. O mundo perde sua evidência, e o sujeito se vê lançado diante de si mesmo, sem garantias.
A nova trajetória de Matraga, salvo da morte por um casal de pretos, poderia ser entendida, numa primeira olhadela, como conversão, já que seus salvadores são religiosos e colocam um padre na vida de Augusto. Mas o que se evidencia é que a chamada conversão de Augusto Matraga não elimina a matriz que organizava Nhô Augusto. A “vontade doente de fazer coisas malfeitas” não desaparece; ela é reconhecida, nomeada e, sobretudo, manejada. Isso é crucial: não há aqui erradicação, mas contenção. A resposta de Matraga — “rezar mais, trabalhar mais” — indica uma operação de disciplinamento, quase ascética, que lembra muito mais uma economia de repressão do que uma transformação estrutural.
O que me parece é que a masculinidade violenta apenas se reinscreve sob outro regime simbólico: um regime agora legitimado por Deus. A violência não é abolida; ela é diferida, canalizada, aguardando uma ocasião legítima para emergir. O que muda é o enquadre que autoriza sua expressão. Vê-se em Matraga não uma resolução da angústia, mas uma tentativa de estabilizá-la por meio de uma forma rígida de vida. A religiosidade aparece, então, menos como abertura e mais como contenção.
No terço final da narrativa, ao hospedar o bando de um jagunço notório, Joãozinho Bem-Bem, emerge forte em Matraga o desejo de se juntar a esses homens e seguir caminho com eles, na função. Esse desejo, penso, indica uma espécie de reconhecimento: Joãozinho encarna, de forma intensificada, aquilo que ele próprio foi — e talvez ainda seja. O impulso de aderir ao grupo sugere que a antiga lógica de virilidade, honra e violência permanece operante como horizonte de sentido.
A cena do rompimento com Bem-Bem, então, pode ser lida menos como uma escolha ética abstrata e mais como um efeito contingente de uma situação concreta: a recusa de Matraga a uma ação específica, dirigida contra inocentes, que tensiona o código que ele, de algum modo, passa a sustentar. Mas esse código não é estranho à violência — ele a reorganiza.
Trazendo Søren Kierkegaard para o debate, talvez possamos pensar não em uma “escolha autêntica”, mas em algo mais próximo de um movimento paradoxal: uma subjetividade que tenta se constituir diante de Deus, mas que não se livra das determinações anteriores. Kierkegaard insistiria que a relação com o absoluto não elimina o desespero; ela o reconfigura. E Matraga, nesse sentido, talvez não supere o desespero de ser quem é — este desespero o reinscreve numa nova gramática.
Assim, o duelo final com Joãozinho Bem-Bem pode ser lido não como o momento em que Matraga “se encontra”, mas como o momento em que as duas matrizes que o atravessam — a violência constitutiva de sua masculinidade e a disciplina religiosa que tenta contê-la — entram em composição. Ele age, finalmente, mas essa ação não é pura: ela carrega tanto o impulso violento quanto a legitimação moral.
Talvez o mais interessante seja justamente isso: Matraga não se purifica. Ele se torna, ao cabo, uma figura atravessada por forças heterogêneas que não se reconciliam plenamente. Seu gesto final não resolve o vazio — ele o dramatiza. Porque o vazio, aqui, não é ausência de conteúdo, mas impossibilidade de unificação: uma existência que não consegue mais coincidir consigo mesma, mas que ainda assim precisa agir.
Não se trata de sair de si, mas de continuar sendo, de outro modo, aquilo que nunca deixou de operar. Leiam o conto, recomendo vivamente!
Larissa Abrão