AO TERAPEUTA, PACIÊNCIA E PERSISTÊNCIA. NO MÍNIMO!

Então… Estávamos falando da necessidade de um terapeuta paciencioso e persistente, que encare combater com o paciente o ideal da produtividade pra colocar na vida presente o sentido das coisas. E acho mesmo que isso exige do terapeuta paciência e persistência por um motivo simples: estamos nós também, os profissionais, capturados pelo modelo da produtividade. Quantos de nós já desativamos e reativamos, muitas vezes, nossas redes sociais-digitais por nos sentirmos cansados, especialmente pela pressão que o sucesso auto-propagado do outro faz sobre a nossa própria carreira? Quantas vezes já pensamos em desistir porque o colega conta da sua clínica cheia de pacientes que melhoram muito, gente que recebe alta feliz e realizada, enquanto você tem os mesmos pacientes há anos e os novos parecem que não te chegam na mesma abundância?

Eu ouço muito sobre isso nas supervisões e costumo convidar a um balanço que leve em conta o que acontece dentro das relações terapêuticas que os supervisionandos têm com seus pacientes, e não fora. E gosto de perguntar por que é que esse deixou de ser nosso parâmetro principal e passamos a nos guiar pela algaravia das redes. Lá, tudo tem filtro e peneira, tudo é editado, até a fala da gente é alterada pra passar mais rápido, na velocidade que agrada ao acelerador produtivista, sempre, sempre acionado.

Conosco também há que haver um trabalho de nos postarmos no presente e investirmos na velha e boa proposta de estar-com o outro, verdadeiramente, sem o apito incansável das notificações, que mesmo desligadas, continuam ruidosas na nossa cabeça. Para nos dedicarmos ao presente, é preciso hoje um exercício da vontade, pois a sensação de estar fora das redes é a sensação de estar perdendo algo, de não estar acompanhando as atualizações, as últimas trends, os últimos cancelamentos, a nova palavra-síntese que agora não pode deixar de ser usada, o autor que não pode mais ser lido e que deve ser detestado.

Ou seja, estar aqui e agora passou a representar algum tipo de perda, alguma coisa que você deixou de saber enquanto simplesmente estava ali. A paciência a ser desenvolvida, portanto, é a paciência de quem vai aprendendo que nenhuma perda é definitiva, especialmente a da informação. É a paciência de quem espera que o outro encontre o seu tempo num espaço de presença partilhada. A paciência também de quem entende que não dá pra ter tudo, embora essa seja a mensagem central da nossa era.

E a persistência do terapeuta, da qual eu falei no outro texto? A persistência me parece ser exatamente o ingrediente que tece o pano pra que a paciência ali se segure. São irmãs, eu acho. E penso que precisamos persistir porque nós também somos várias vezes tentados a desistir do paciente, inclusive sem ter que necessariamente dar alta. E desistir do paciente mantendo-se como seu terapeuta talvez seja mais perigoso do que encaminhá-lo, porque, no fundo, vai esvaziando de sentido nossa atuação. Vai transformando a relação terapêutica numa relação meramente mercantil.

São tempos exigentes, já dissemos. Estar em relações como essa, profissionalmente fundada, exige ainda mais, porque envolve expectativas de resultados. Por isso, insisto: poder avaliar os resultados com o paciente e não apenas sobre ele, pode ser precioso, porque subtrai das redes digitais o poder de ser a medida universal. A relação ainda é – e creio que sempre vai ser – nossa melhor régua.

Larissa Abrão

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