DE TÉDIO NÃO SE MORRE E ATÉ SE VIVE.

Quando a gente fala em tédio, normalmente vem aquela ideia meio banal: estar sem nada pra fazer, entediado, esperando o tempo passar. Mas, se a gente olha para isso com mais cuidado — como faz a fenomenologia — o tédio ganha uma espessura bem mais interessante. Ele deixa de ser só um incômodo e passa a ser uma espécie de pista sobre como estamos vivendo o tempo e o mundo.

                Heidegger, por exemplo, leva o tédio muito a sério. Ele diz que existem formas diferentes de tédio, e que, na mais profunda delas, não é só uma situação específica que perde a graça — é o mundo inteiro que parece meio sem sentido. Sabe aqueles momentos em que nada parece realmente chamar a sua atenção, como se tudo estivesse meio “apagado”? Pois é, para Heidegger, isso não é só falta do que fazer. É como se, por um instante, as coisas deixassem de nos convocar, e isso pode revelar algo importante sobre a nossa relação com a vida e sobre a relação da vida com seu tempo histórico.

                Se a gente aproxima isso da nossa experiência cotidiana, começa a ficar mais fácil perceber: o tédio não é só vazio, ele é também uma espécie de suspensão. Como se o ritmo habitual fosse interrompido — e, nesse intervalo, alguma coisa pudesse aparecer, alguma coisa que a gente fica esperando sem saber o que é.

                Tanto que, interessantemente, o tédio, que poderia, a princípio, se relacionar com a apatia, parece, nesse nosso momento social, se relacionar mais com a ansiedade. Ansiedade de esperar que algo que não se sabe o que é venha preencher um certo vazio que não se sabe bem de quê. Podemos falar, então, da existência de um paradoxo: mesmo com constante ocupação, muita gente relata essa sensação difusa de vazio. Não se trata mais aquele tédio clássico, de não ter o que fazer. É um tédio estranho, que aparece mesmo quando estamos fazendo mil coisas. Como se o excesso de estímulos não conseguisse, de fato, nos envolver.

                Entendo que aqui entra um elemento decisivo: o modo como vivemos o tempo hoje. A vida contemporânea parece não dar muito espaço para esse tipo de experiência. Como observa Hartmut Rosa, vivemos numa lógica de aceleração constante — mais tarefas, mais estímulos, mais informações, tudo ao mesmo tempo. E, diante disso, qualquer sinal de tédio vira quase um problema a ser resolvido imediatamente.

                Basta pegar o celular. Em poucos segundos, a gente preenche qualquer lacuna: redes sociais, mensagens, vídeos curtos… Não há mais intervalo. Não há mais aquele “nada” que, antes, podia até incomodar, mas também podia abrir espaço para outras coisas — como pensar, lembrar, imaginar, ou simplesmente estar.

                É aqui que a reflexão de Byung-Chul Han ajuda bastante. Ele sugere que perdemos, em grande medida, a capacidade de sustentar uma relação mais contemplativa com o tempo. Estamos sempre nos movendo, sempre produzindo, sempre reagindo — mas raramente permanecendo.

                E talvez seja justamente isso que o tédio, quando não imediatamente evitado, pode nos devolver: a possibilidade de parar, de assumirmos, como diz Han, a negatividade do produzir. Ao não produzir, ao não fazer nada, abrimos espaço para o acontecimento – que pode chegar, ou não, não deve ser uma espera. Falo, portanto, no sentido de podermos fazer uma pausa mais radical, em que algo do mundo — ou de nós mesmos — possa aparecer de outro jeito.

                Então, em vez de tratar o tédio apenas como algo a ser eliminado, talvez valha a pena escutá-lo um pouco. Perguntar o que ele está dizendo sobre o ritmo em que estamos vivendo, sobre o modo como nos relacionamos com o tempo, com os outros e conosco.

                No fim das contas, o tédio pode ser menos um inimigo e mais um convite — ainda que um convite desconfortável — para desacelerar e, quem sabe, reencontrar algum sentido que não cabe na pressa.

Larissa Abrão

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