Estou lendo ainda o último livro de Giovana Madalosso, intitulado “Batida só”, mas já me deparei com uma preciosidade que vai nos servir pra um bom papo:
O ambiente digital é a terra dos sentimentos amputados. Ali podemos interromper qualquer emoção pausando o áudio, o vídeo, fechando o aplicativo. Podemos transformar a emoção numa carinha amarela e parir pra outra[1].
Pensei logo em PHG (Perls, Hefferline e Goodman, Gestalt-Terapia) e numa das considerações principais da obra, a que trata da importância da espontaneidade e de seu papel no desenvolvimento dos ajustamentos criativos. Pensei em como a velocidade do ambiente virtual tirou de nós algo fundamental para que o espontâneo tenha substrato pra crescer, tirou de nós o tempo necessário para sentir.
Muitos especialistas em infância já têm sinalizado sobre os efeitos deletérios do ambiente digital para a formação de elementos cognitivos básicos como atenção, concentração e raciocínio lógico, e acho que vale acrescentar sobre os prejuízos relacionais e sobre a dificuldade de comunicação. Mas há uma questão que penso ser diretamente ligada à produção da nossa saúde mental: quando o espontâneo é suprimido e nossa possibilidade de sentir passa a ser obliterada, criamos a ilusão de que as funções racionais podem sobrepujar ou comandar as emoções.
Portanto, passamos a crer que podemos evitar sentimentos desorganizadores, que podemos permanecer no controle para escapar de que o desagradável seja experimentado. Um dos resultados disso é impossibilidade de arcar com sentimentos ambivalentes, ou mesmo de atravessar frustrações, que são tão importantes para o desenvolvimento dos nossos ajustamentos criadores. A ansiedade, que cresce assustadoramente nas estatísticas mundiais de adoecimento mental de maior incidência, também pode ser considerada como um efeito na ponta da linha.
Por isso PHG foram tão enfáticos na defesa da experimentação da espontaneidade como uma ferramenta de saúde. Deixar-se acometer pela emoção, pelas sensações provocadas na vivência do presente significa promover uma das funções sustentadoras do sistema self, que é a função id. É por ali que podemos colocar nosso corpo disponível para as relações, é por ali que podemos nos apresentar fora de qualquer controle, como pessoas atravessadas pelos acontecimentos emocionais e sensoriais. A função id é a função da entrega à experiência. O que a virtualidade faz, de certa forma, é nos emprestar a crença de que podemos comandar aquilo que nos afeta quando estamos naquele ambiente, porque, como diz Madalosso, basta amputar qualquer sentimento que eu não queira viver.
Penso, então, que uma das tarefas maiores da terapia – e isso é algo que sempre trabalho muito nas supervisões – é promover o resgate do espontâneo na vida do paciente. Claro, começamos com o espontâneo prazeroso, aquele que desperta os sentidos corporais, aquele que nos lembra de que a mente não se resume à atividade cerebral para que a pessoa se abra para o contato com qualquer espontaneidade e que entenda isso como recurso criativo, recurso de ampliação relacional no mundo.
Quero dizer com isso que, apesar de parecer simples, não é uma tarefa pequena e muito menos fácil. Convidar o outro a recolocar o sentir na vida, sem controle, quando do outro lado há uma promessa de que é exatamente no controle que repousa a felicidade, pode ser uma batalha de longa duração, que requer um terapeuta persistente e paciencioso. Mas… Esse pedaço do papo fica para a próxima newsletter, tá bom?
Larissa Abrão
[1] Como estou lendo no Kindle, não sei se a informação vai ser válida, mas o trecho está nas páginas 80 e 81, em fonte Amazon Amber, tamanho 3.