Eu e Gabi terminamos de assistir a uma série que parece despretensiosa e até leve no modo como está roteirizada, mas que, em essência, toca em temas profundos. A série é The Madison, exibida pela Prime Video e começa apresentando o ponto de vista de um dos protagonistas sobre a relação dele com um rancho em Montana. A partir dessa relação, vamos entendendo que há lugares que parecem nos prometer outra vida. Não necessariamente porque alguma coisa objetiva aconteça neles, mas porque, diante de certas paisagens, experimentamos por alguns instantes a sensação de que existir poderia ser diferente. Uma montanha, um rio, uma estrada atravessando um campo imenso podem produzir aquilo que talvez chamemos de êxtase: um deslocamento para fora da experiência ordinária, como se o mundo subitamente recuperasse uma intensidade que a rotina havia apagado.
The Madison é uma série sobre muitas coisas, mas fiquei pensando especialmente nisso. De um lado está Nova York, com sua vida urbana, seus compromissos, sua velocidade e seus modos já estabelecidos de existir. Do outro, Montana, cuja paisagem não funciona apenas como cenário, mas interfere na experiência das personagens. Há alguma coisa naquele território que parece convidá-las a uma existência mais intensa, talvez até mais verdadeira.
Kierkegaard descreveu o estético como uma das possibilidades da existência humana. Não se trata simplesmente de gostar do belo, mas de orientar a vida pela experiência, pela intensidade, pelo prazer, pela novidade, por aquilo que consegue nos retirar da banalidade. Todos conhecemos, em alguma medida, a fantasia de que uma viagem, uma mudança de cidade, uma casa no campo ou uma paisagem suficientemente extraordinária poderá devolver à vida aquilo que sentimos ter perdido.
Talvez seja por isso que certos lugares nos provoquem tanto êxtase. Por alguns instantes, eles parecem suspender a banalidade e nos devolver a sensação de estarmos radicalmente vivos. Mas The Madison introduz nessa paisagem uma presença que nenhuma beleza consegue neutralizar: a morte. E é aí que a série se torne existencialmente mais interessante.
Sabemos que vamos morrer. É provavelmente uma das primeiras grandes verdades que aprendemos sobre a condição humana e, ainda assim, conseguimos atravessar semanas, meses, às vezes anos, sem que esse conhecimento realmente interfira na maneira como vivemos. A morte permanece como uma espécie de certeza invisível: intelectualmente conhecida, existencialmente esquecida.
Até que deixa de ser.
Quando alguém próximo morre, não perdemos apenas aquela pessoa. Por algum tempo, perdemos também a possibilidade de continuar fingindo que a morte pertence aos outros. Aquilo que permanecia no fundo da experiência avança violentamente para a figura e reorganiza o campo inteiro. O café da manhã, uma conversa interrompida, uma viagem adiada, uma briga antiga, o trabalho que parecia urgentíssimo na semana anterior, tudo muda de tamanho. Penso que morte tem essa capacidade perturbadora de devolver proporção às coisas.
E é interessante que isso aconteça, em The Madison, diante de uma natureza tão exuberante. Porque a paisagem permanece belíssima depois da tragédia. O rio continua correndo. As montanhas continuam ali. A vida não interrompe seu movimento para acompanhar o nosso sofrimento. Há algo de cruel nisso, mas talvez também haja alguma espécie de consolo: o mundo continua existindo quando o nosso mundo parece ter acabado.
É nesse ponto que a experiência estética encontra seu limite. Nenhuma paisagem pode nos salvar da finitude. Podemos mudar de cidade, atravessar montanhas, contemplar rios extraordinários e construir uma vida cercada de beleza, mas continuaremos sendo seres temporais. O êxtase pode intensificar a existência; não pode torná-la infinita. A insuficiência do estético não significa que a beleza seja superficial ou dispensável, mas que ela não consegue, sozinha, sustentar uma existência. Em algum momento, somos convocados a fazer algo com aquilo que experimentamos. A beleza precisa transformar-se em escolha, compromisso, responsabilidade, relação.
Na clínica, encontramos frequentemente pessoas que depois desses acontecimentos reorganizam brutalmente o campo: uma morte, um diagnóstico, uma separação, um acidente, o envelhecimento dos pais. Nessas horas, perguntas que pareciam abstratas adquirem uma concretude quase física. Estou vivendo como gostaria? Por que continuo adiando determinada escolha? Quem realmente importa? O que estou fazendo com o tempo que ainda tenho?
Talvez seja por isso que The Madison tenha me interessado. A série é mesmo leve em muitos momentos, mas coloca lado a lado duas experiências humanas poderosas, o êxtase diante da beleza e a consciência da finitude. Uma nos diz: olhe como a vida pode ser extraordinária. A outra responde: e olhe como ela termina.
Como a Gestalt-terapia nos ensina a sair das polaridades, penso que um trabalho clínico possível, se essa fosse uma situação, seria ajudar o paciente a sustentar os dois caminhos: não abandonar o êxtase, nem transformar a consciência da morte numa existência permanentemente grave. A finitude não precisa retirar a alegria da vida, ao contrário, pode devolver densidade a ela. O que quero dizer é que morte não empobrece a existência, mas esquecê-la por tempo demais pode nos aproximar de uma “imortalidade” superficializante, que impede de lembramos de que, sim, há paisagens extraordinárias e transformadoras; mas não, não estaremos diante delas para sempre.
Larissa Abrão