Eu quase não conheci a Larissa

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Cá estou pra contar um pouco mais da nossa história que tem virado família…

Eu quase não conheci a Larissa, pelo menos naquele dia. Digo quase porque cheguei a atravessar a rua para ir embora, mas, no meio do canteiro, voltei pra tentar a sorte em algum outro minicurso… Bendito canteiro que também separou a minha vida!  Escolhi uma das portas e entrei…  Bendita porta que dividiu a minha vida! Estávamos em 2011, no último dia de Setembro e eu…

Eu vinha, como já disse por aqui, de uma história de três anos que me adoeceu. O incômodo do encontro comigo mesma e com um amor fora da heteronormatividade tinha me machucado muito.  O desconforto da infância veio à tona numa manifestação genuína e dolorosa de amor: amei uma menina. Meu Deus! Isso nunca tinha acontecido e eu não sei como aconteceu; foi natural… Eu só reparava, em pânico e maravilhada, nas coisas que sentia toda vez que ela estava por perto.  Aos dezoito, o encaixe de alma e depois de corpo que senti ali, eu nunca tinha sentido antes.

O problema ou um dos problemas dessa minha história é que um recém-adulto, na pele de um recém-adulto, é quase nada, a gente continua pequeno e inseguro, provando das coisas que nunca sentiu e sem nenhuma independência.  Minha criação na tradição protestante e meu empenho nas coisas da igreja denunciavam ainda mais que eu estava no caminho errado.  O amor, que deveria ser leve, passou a ser um jugo. Você só quer se livrar daquilo que sente, ao mesmo tempo em que é inevitável sentir e você também quer sentir – porque talvez seja a primeira vez que você se sente encaixado em si e em alguém. Eu queria as duas coisas, me livrar e sentir; e o peito doía, o peito doía constantemente; faltava ar, faltava ar constantemente. Perdi as contas das noites mal dormidas, da quantidade de catarro expurgado, das vezes em que o joelho foi para o chão… Precisava funcionar… Perdi as contas de quantas vezes fitei meus olhos ainda empapuçados no espelho na tentativa de começar de novo.

O choro ficou cada vez mais constante nas tentativas de ir à faculdade ou à igreja e depois ficou mais constante na faculdade e na igreja… No trânsito, na rua, no banho, na cama… As roupas denunciavam minha perda de peso e os olhos… Eu sempre precisava ir embora de onde estava; o peito e o sorriso doíam e, por mais que eu pudesse recorrer a algumas pessoas, fui ficando cada vez mais sozinha.

A coisa foi desmoronando e, apesar da minha resistência, meus pais me levaram ao médico. O diagnóstico veio sem nenhuma dúvida – nem eu tinha dúvida: Depressão. Na época, apesar de já estar na faculdade de Psicologia, também tive resistência quanto aos remédios – até que fui aceitando que precisava deles. Também perdi a conta da quantidade de gente que se assustava ao me ver: “O que foi, Gabi?… Nossa, Gabi…”. E, apesar de querer falar, só na terapia eu podia falar sobre mim.

A menina que me desvirginou no amor não conseguiu ficar e se foi ou foi arrancada, eu não sei, mas, ainda assim, se foi – demorei pra entender. Achei que pra conseguir me livrar do que sentia por ela e respirar melhor, eu precisava contar para os meus pais. Contei… Que coisa doída contar, parece que dói mais do que não contar, mas eu precisava falar: na minha cabeça, só assim conseguiria esquecer. E eu queria muito esquecer.

Demorei bastante pra dar outro lugar pra essa história toda, apesar das cobranças lá de casa. Eu até me empenhei e queria um namorado, mas não conseguia levar nada adiante – o que também me aborrecia. Também já disse por aqui: os de quem eu gostava, não gostavam de mim e, dos que gostavam de mim, eu não gostava.

            Eu não me interessei e nem queria me interessar por outras mulheres, até que mais de um ano e meio depois, no meio do canteiro da UFU, eu resolvi voltar e escolhi a sala certa pra entrar. Entrei… Vi a Larissa e, de certa forma, estou naquela sala até hoje.

2 comentários sobre “Eu quase não conheci a Larissa”

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