“Venha me beijar, vento, e tire meu fôlego
Até que você e eu sejamos um só,
E dançaremos entre os túmulos
Até que toda a morte se vá”

A primeira foto é de 2009, ainda na caverna escura. Já a segunda é de 2011, na saída, poucos meses antes de conhecer a Larissa.
O Grande Vento, pessoas queridas, o remédio, a terapia, os exercícios físicos, as leituras… Ganhei peso e, com insistência, o sorriso e o interesse pelas coisas da vida foram, aos poucos, voltando. Do diagnóstico de Depressão a me sentir de fato bem se passaram quase dois anos e em 2011 eu estava saindo da caverna escura (Leia Mais). Um pé de cada vez, já bem mais sorridente, cheguei no último dia de Setembro: entrei naquela sala e avistei a Larissa.
A Larissa era a palestrante e eu me assentei ao fundo. Logo que entrei, ela se dirigiu até mim (enquanto continuava falando), mesmo sentada nas últimas cadeiras, e me deu um papel para que eu seguisse a palestra. Não foi amor à primeira vista (porque não acredito nele), mas foi um monte de outras coisas. Eu me lembro da roupa, da sandália rasteira, do cabelo que não mudou muito, da voz que eu adorei (e que ecoou por muito tempo na minha cabeça), do movimento das mãos – das mãos que me visitaram, mesmo tão formal e desconhecidamente, me entregando aquele papel.
Uns vinte minutos depois, para o meu desgosto, seguimos para o intervalo e segui a Larissa com os olhos pelo saguão. Reparei que ela foi à feirinha de artesanato, ficou na fila do lanche, cumprimentou e conversou com algumas pessoas, até que, finalmente, conversou com alguém que eu conhecia. “É a minha chance”, eu pensei. Mas fiz o que eu sempre condeno: cheguei, interrompi a conversa, cumprimentei a pessoa que eu conhecia, mas não consegui olhar pra Larissa. Fiquei com vergonha e saí de costas pra ela.
Recebi uma mensagem e precisei ir embora acudir um projeto. Mas a Larissa foi comigo, na minha cabeça. Indo embora é que descobri o nome dela no panfleto: “Larissa Guimarães Martins Abrão”. Procurei por ela no Google, na Plataforma Lattes (uma espécie de Tinder acadêmico) e tracei, depois de alguns dias matutando, um plano de aproximação. Pela visita ao Lattes, descobri que ela se interessava em estudar questões de gênero e aí me decidi: escrevi, timidamente, pedindo algumas sugestões de leitura sobre isso.
Na espera angustiante de uma resposta, não era muito claro pra mim o que eu queria, embora eu já tivesse pistas. Mas uma sensação me visitou muito fortemente ao conhecer a Larissa naquele evento: eu queria que ela participasse da minha vida, pelo menos um pouquinho – anos depois eu estava escrevendo sobre isso nos meus votos de casamento.
Conforme ela me respondeu, o que me deixou muito feliz, prossegui com a minha estratégia de aproximação: “Vamos fazer uma pesquisa sobre gênero e religiosidade?”. A resposta foi positiva e, ingenuamente, a Larissa sugeriu um encontro. Quase explodi de tanta felicidade e ansiedade, mas criei coragem e liguei – depois de repassar na minha cabeça umas mil vezes o que diria ao telefone, é claro. Marcamos.
Repassei outras mil vezes o que deveria conversar pessoalmente, tomei um banho demorado, escolhi minha melhor roupa e, antes de sair de casa, fiz uma oração. Fiz uma oração porque agora, sim, eu já sabia o que queria – e precisava dizer pra Alguém.
1 Nem Teologia, nem Psicologia. O poema do início é de William Young e, por indicação da mãe de uma amiga, “A Cabana” foi um dos livros que li na caverna escura.
Mais sobre a caverna escura e sobre como conheci a Larissa no texto anterior: https://doisiguais.com/2016/06/24/eu-quase-nao-conheci-a-larissa/