Como é que eu não ficaria?

No nosso primeiro encontro a Larissa chegou com uma bolsa cheia de livros, um vestido verde, carregando um sorriso largo no rosto. Gosto sempre de lembrar. Conversamos sobre os seis (seis!) livros que ela tinha levado para me emprestar (afinal, o encontro era para tratarmos da pesquisa que eu havia proposto) e conversamos, por horas, sobre uma série de outras coisas… Enquanto a conversa acontecia, acontecia outra comigo mesma: “Será que ela é casada?… Será que é gay?… Será que se interessaria?…”.

Li o primeiro livro bem rápido, marquei um segundo encontro pra devolvê-lo e pintei uma caixa pra Lah. Era pra fazer caber o agradecimento da entrada dela na minha vida – que já transbordava. Afinidade é uma coisa que captura a gente de jeito e a parceria que

SONY DSC

Ainda em 2011

estabelecemos ali foi se multiplicando ao longo dos dias. Nunca mais paramos de nos falar.

Uma mensagem e outra, e depois outras, alguns outros encontros… Contei pra Lah sobre a minha história, sobre os costumes da minha família, sobre a minha própria tradição religiosa e ela foi ficando…  Era Novembro e nós ficamos, depois de uma batalha dentro de mim pra não sucumbir. No dia seguinte terminei com ela. A culpa, o medo de estar errando, a desconfiança na minha casa… Parecia impossível seguir adiante.

A resposta da Larissa veio com ternura para o meu término: “Eu sabia que seria assim, Gabi. Mas mesmo assim não teria me furtado de viver isso com você.” Ganhei um livro e um poema dela naquela semana. O livro é da Martha Medeiros, “Feliz por nada”, e era pra dizer sobre a felicidade que ela me desejava, independente do caminho que eu seguisse, e o poema – que copio abaixo – era pra dizer sobre o que ela sentia por mim.

A Lah é tão boa com as palavras, mas sempre respeitou muitíssimo meus términos; nunca me pediu, literal ou exigentemente, pra ficar, embora me falasse do desejo da permanência. Ali, com ela, comecei a entender sobre como o amor é para a felicidade, para a liberdade. Apesar dos meus términos semanais que nos assolaram por meses, nunca consegui ir embora de verdade. Ainda bem.

OZ

Dois olhos negros me tateiam

feitos de luz e interrogações.

Vejo o vento debaixo da brancura,

o tufão que se traduz no corpo

e se transforma em riso.

Pergunto o que mora na gema bruta,

no potro livre, na correnteza.

A beleza dorme ali, em estado puro,

na alma sem doma.

Me vejo encantada pelo selvagem

que atravessa sua cara de bicho manso.

Cedo, morrendo de medo e desejo

do que te habita.

Deixe um comentário