Entre Novembro de 2011 e Junho de 2012 foram oito meses tentando ficar e, ao mesmo tempo, tentando uma despedida. Não tinha briga, só choro na saída e na conversa que eu teimava trazer à tona, mesmo depois de um dia cheio de riso. Dói lembrar.
Pra explicar meus términos semanais, preciso abrir parênteses. Eu queria terminar porque, definitivamente, não queria e nem podia ser gay. Sou filha única e meus pais, pra não me estragarem, sempre foram rígidos comigo. Na verdade, a minha mãe, a fêmea alfa da família – e falo isso com carinho, eu juro –, é quem sempre deu o tom das coisas por lá. Como a minha família é de tradição evangélica, fui logo pra igreja. Comecei a servir cedo, aprendendo sobre o significado dessa palavra, “servir”. Dou graças a Deus porque cresci – em todos os sentidos que essa palavra envolve – no “chão de fábrica” da II Igreja Presbiteriana de Uberlândia. Embora eu tivesse muitíssimas insatisfações com a liturgia presbiteriana, poderia ter sido bem pior crescer em outra igreja. A igreja me deu um lugar, me permitiu passeios e viagens, me fez conhecer gente boníssima, construir amigos e contribuiu, infelizmente, para que eu não construísse outros. Minhas inquietações com o jeitão presbiteriano me deram alguns heróis batistas e outros “piores”, sem denominação certa. Chorei pelo avivamento e, pelas inquietações, aprendi a gostar de ler. Li muita coisa ruim, li muita coisa boa e ainda estou distinguindo uma coisa da outra. Numa dessas, em 2005, aos quinze anos, já sabia quem era Michel Temer e ao que vinha. Alguns dos meus heróis permanecem até hoje. Levei o estudo a sério, num radicalismo adolescente – bem mais do que o esperado no script da minha mãe. Comprei algumas discussões e, numa feita, fui expulsa de uma escola missionária. A igreja, por incrível que pareça, me deu certa liberdade e acho que, por representar um terreno seguro, lá meus pais me deixavam circular. Mas, engano deles, engano de todo mundo, inclusive o meu, lá não era um terreno seguro e uma fagulha do evangelho vivo caiu aqui dentro: era o Homem Carpinteiro “mudando as coisas de lugar”. Bem antes da Psicologia, foi na igreja e com o tal Carpinteiro que aprendi a cavoucar nas coisas, muitas delas no fundo de mim. Fecho parênteses.
A rigidez e a vigilância lá em casa tinham sido aumentadas depois da história do meu adoecimento e em função da minha primeira experiência com uma menina. Por estar num romance gay – aprendido, até então, como pecaminoso e saber que assumir minha relação representaria um choque ou até um rompimento com tudo – um passeio ao Shopping com a Larissa era sempre acompanhado pelo medo de encontrar alguém. E assim, seguiu-se um diapasão de tensões: um café no meio da tarde e o tal medo de encontrar alguém, precisar ir embora cedo, esconder quem você ama das pessoas que você ama, pedir pra Larissa me deixar na esquina, deixar a Larissa na esquina, vigiar o celular pra não esquecê-lo em nenhum lugar, estacionar o carro num lugar pra estar em outro, esconder a conta detalhada de telefone, sonhar com um almoço longo, entrar escondido, sair escondido, aquela apreensão ao atender um telefonema da minha mãe e ter que mentir sobre com quem eu estava e onde estava, ainda ser universitária, fazer minha sogra (que a essas alturas já me conhecia) sair no meio do filme no cinema porque meu telefone não parava de tocar e eu tinha que atender, impreterivelmente ter hora pra voltar… Esconder, mentir… Aprendi, com o Carpinteiro, que a mentira sobre nós mesmos é uma das coisas mais difíceis de carregar, mas eu teimava em tentar escolher um atalho pra verdade: terminar com a Larissa.

Foi feliz.
Certa vez procurei a Larissa pra voltarmos. Toquei o interfone porque já tinha devolvido a chave da casa dela, mas ela não abriu: “Gabi, não vou abrir, preciso entender que estou sozinha”. Bendita frase! Me fez entender que ir embora era bem mais custoso do que ficar na relação. É claro que depois de algumas horas, com certa insistência, ela acabou cedendo. E depois de algumas semanas sem terminar, ao encarar no visor do celular seis chamadas de casa e sem mais nenhum álibi, eu também disse uma bendita frase: “Vou contar hoje, Linda”.
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