Minha confissão

Na ocasião em que decidi contar para os meus pais (Leia Mais), eu já tinha pesado a severidade dos danos, especialmente naquelas últimas semanas. Não foi um impulso de alguém sem álibi; eu sabia o que estava por vir e só topei sair do armário porque também sabia quem estava me esperando do lado de fora. Apesar das idas e vindas, eu sabia da relação que tínhamos construído.

                O medo que senti naquela noite foi parecido com quando contei sobre a minha primeira experiência com uma menina (Leia Mais)  e nunca senti tanto medo quanto nessas duas confissões. Mas, da primeira vez, era pra me livrar da culpa de ter vivido algo errado; era pra me curar de amar alguém do mesmo sexo. Da segunda, era pra encarar o que eu sentia por uma mulher; era pra me dar espaço – espaço para o que sentia por ela e espaço para mim mesma.

                Depois de ligações insistentes, era certo que meus pais estavam me esperando. Não eram mais que 22 horas e naquela noite eu me despedi da Larissa dizendo que contaria. Dirigi com tanto medo; um caminho longo. Contei. Logo no início do interrogatório, fiz minha confissão. Vou usar um recurso que li em um texto sobre luto esses dias, é uma frase de “A Eneida”, de Virgílio: “Há lágrimas nas coisas”.

                Muitas dessas coisas já foram saradas aqui, mas o que mais me dói até hoje, é que meus pais não entenderam aquele choro – que era o mais genuíno de mim. Nem o da primeira confissão, nem o da segunda. O da primeira era de alguém pedindo ajuda, o da segunda era o de alguém que já tinha tentado de tudo pra abafar essa parte desviante de mim. Não entenderam o cansaço de já ter tentado tudo.

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Eu não sei quanto ao meu pai, mas sei que o susto da minha mãe não foi o fato em si (estar com uma mulher), mas a confissão. O que a assustou foi eu dizer que queria isso (não conseguia nomear) pra minha vida. Eu precisava tentar porque não viver isso, não sentir isso, eu já tinha tentado. Talvez falar em felicidade pareça sempre um recurso clichê, mas eu precisava tentar ser feliz assim (e não é que antes eu não tenha sido feliz, mas faltava encaixe). Quando digo do encaixe de alma e de corpo, não faço referência apenas ao encaixe do meu encontro com a Larissa, faço referência a mim mesma: consegui me encaixar em mim. É essa a parte da felicidade que me refiro. E já me adianto para os meus irmãos algozes, esse encaixe aí não é o contrário do “negue-se a si mesmo” e do “siga-me” que Jesus propõe. Por muito tempo eu entendi que fosse. Um cara chamado Paulo Brabo*, misericordiosamente,  me ajudou a entender que eu estava errada.

Naquela noite eu ouvi algumas propostas: mudar de cidade, uma internação em Belo Horizonte, campanhas de oração… Se eu ficasse, era pra seguir o que era certo diante de Deus (e heteronormativo diante dos homens). Eu sabia que seria assim, sabia que, a partir do momento que contasse, teria que escolher. Na verdade, quando decidi contar, eu já tinha feito a minha escolha. Não pude levar meu carro, nem a chave de casa. Naquele momento, o que pude levar de material da minha vida antiga, além do que calçava e vestia, consigo enumerar, porque foram poucas coisas: meu celular, minha bolsa da faculdade, os livros que precisava devolver na biblioteca, meu notebook, meus certificados e alguns brincos. Eu ainda estava terminando a faculdade e não tinha nenhum dinheiro pra levar.

Quando a conversa terminou, já era madrugada. Minha mãe autorizou meu pai a abrir a porta que ele havia trancado pra me impedir. Desci do elevador, pra minha nova vida, e liguei pra Larissa me buscar no viaduto ali perto da casa dos meus pais. “Há lágrimas nas coisas”, repito o recurso. Ainda dói pensar que algo tão genuíno de mim precisou ser tão marginalizado que me fez esconder-me, por medo, debaixo de um viaduto no início da madrugada.

Ontem fez quatro anos. Há riso nas coisas.

*Os textos do Paulo Brabo estão estocados em “Na cama com a Bíblia”, em www.baciadasalmas.com e são principalmente três: ” Sexo entre pares: o homem romântico e a era das relações igualitárias”; “Sexo e poder”; ” Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor”.

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