
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(Tabacaria – Fernando Pessoa)
Pra falar sobre o final de semana, tenho que contar da Aline, uma amiga psicanalista aqui de Uberlândia. Ela apareceu na nossa vida num abraço inesperado da Psicologia e tem duas das virtudes que mais admiro em alguém. Sintetizo uma delas na frase do Paulo Brabo: “aqui as ideias não descansam”. A outra é a coragem para esse abraço que acolhe as diferenças, não só as teóricas e as das Psicologias. A Aline me deixa, então, numa situação confortável e desconfortável. Explico: pela primeira virtude, sei que, com ela, vou poder falar sobre tudo (e isso também é desconfortável) e segundo porque tenho aprendido (e pensado) sobre meus preconceitos, sobre como acolho (ou não) as diferenças.
Voltando pra história do final de semana, a Aline iria, a princípio, direto para aquele outro universo chamado “capital paulista”. Aceitamos a carona e nos intrometemos no destino: “A gente tem vontade de voar de balão em Boituva, você não anima?”. Ela aceitou com um sorrisão de criança: “É meu sonho voar de balão!”. Como sei que Boituva acolhe os esportes do ar e como o aniversário da Larissa está chegando, fiz o convite até meio displicentemente: “Linda, você gostaria de ganhar de aniversário o salto de paraquedas?”. Minha esposa tem a virtude de acolher as novidades e aceitou.

O balão é pura magia, cor e leveza. A gente fica lá em cima em silêncio, numa contemplação cheia de gratidão, apreciando a vista, se aconchegando quase nas nuvens e avistando o quanto somos pequenos. Já o paraquedas… Na boa, o paraquedas é o encontro com a morte.
Lá fomos as três pra esse encontro e, cara, o paraquedas também é um encontro danado de bom com a gente mesmo e com as coisas da vida. Pra mim, especialmente, foi um exercício de confiança – virtude que tenho tentado desenvolver. Pra ficar a 4,5 Km da terra, com 40 ou 50 segundos de queda livre, velocidade de 200 Km/hr e tudo correr bem com a sua sanidade mental, você tem que confiar num desconhecido (seu instrutor) e na Santa Tecnologia do Equipamento.

A hora de maior tensão pra mim foi a do avião; foi “caminhar” pra porta e agachar ali, com a terra tão longe, esperando o instrutor (@olhovoador) me empurrar.
O salto invade seu corpo de adrenalina. Você grita muito e sei lá com o quê a gente entra em contato. Quando coloquei meus pés no chão tive vontade de chorar: era um choro de gratidão. Por alguma razão as lágrimas não saíram, sentamos as três num silencio, na tentativa de entender o que tinha acontecido. O que fica é o choque, o assombro, a pequenez.
“Busco a brecha pra fungar 10 ml do infinito” é a frase que escolhi para o paraquedas e é de um rapper que gosto muito, o Kivitz. Ta aí outra virtude que tenho tentado, a da experimentação do mundo. Não sei o quanto a gente pode conhecer das coisas, mas tô nesse abraço do Infinito: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Sl 34:8).
Obrigada, meninas! Vocês são demais!



