
A Gabi escreveu um belo texto a respeito do meu aniversário e me deixou sem palavras. Estou aqui, portanto, na tentativa de encontrá-las pra que eu possa agradecer, como ela merece.
Quando nos conhecemos logo ali atrás, em 2011, eu estranhava aquela menina que num convívio inicial comigo se comunicava com mensagens dúbias: ora eu acreditava que ela estava interessada em mim, ora tinha certeza de que não estava, porque ela vivia contando coisas sobre um menino de quem ela achava gostar. O que era aquilo, então?
Eu sempre fui meio lerda diante do interesse alheio. Falo especialmente do interesse feminino, que passei a perceber depois que comecei a me relacionar com mulheres. Morria de medo de dar uma bola fora e, via de regra, eu esperava uma aproximação mais ostensiva e direta de alguém. Sempre assim, sempre na posição passiva diante do desejo delas. Ainda não sei por que isso, eu que era tão atirada quando se tratava da sedução sobre os homens. Com eles, não tinha medo de ouvir um “não” e muito menos medo de expressar o que eu queria. Com as mulheres foi bem diferente e ainda é algo que devo perscrutar melhor pra entender por que eu me apassivei tanto.
A não ser com a Gabi. Diante da ambiguidade dela, eu precisava, sem deixar dúvidas, apresentar o meu desejo. Fui lá eu, então, cheia de uma coragem recém-conquistada, propor uma conversa e dizer que eu a queria, que o que eu sentia era muito diferente de uma amizade e que eu precisava saber o que fazer com isso. Foi minha primeira vez de uma exposição tão clara. E ela recuou. Apesar de assumir que também me queria, ela “não estava pronta”, foi a frase. De cara, fiquei desolada. Achei que tivesse feito tudo errado, que deveria ter mantido o silêncio e, mais uma vez, esperado… Mas eis que no meio da minha confissão infrutífera e do medo dela, nós fomos nos achegando, devagar, como se nos consolássemos da impossibilidade e acabou acontecendo o que eu já nem aspirava: um beijo meio desconcertado, meio querendo território, que brotou pra ficar.
Ali, naquele episódio, comecei a entender que a Gabi entrou pra me arredar dos meus lugares confortáveis, pra me fazer buscar o que em mim é autêntico, mas às vezes mora no escondido. Com ela, por ela, encarei desafios de um namoro clandestino e sigo topando a maior das empreitadas: aprendermos juntas a sermos mães, num casamento com uma grande distância nos nossos tempos; dezoito anos nos apartam. Ao lado dela, eu realmente rio muito e choro muito, até com as coisinhas miúdas que salpicam no cotidiano, porque ela traz pra borda da minha pele o sensível, a viva carne do estar-no-mundo. Meu amor nessa relação me fez ver-me e esse é o presente que se renova todo dia, como num aniversário que não acaba. Por isso, Linda, agradeço o beijo que nos envolveu em nós e permitiu que ficássemos naquele abraço, até aqui e para muito mais.
@larissagma