Quando amigos morrem

(Um texto que eu não consigo terminar.)

“Faz um tempo eu quis 
Fazer uma canção 
Pra você viver mais …”

O presente é tão grande.

O verso é do Drummond e às vezes me aparece de surpresa no meio do dia e meio descontextualizado do poema que o abriga, ficando numa espécie de eco: “O presente é tão grande… Tão grande”.

Acho que você gostava do Drummond, mas eu queria mesmo que lêssemos Tabacaria. Quando morreu, li o Salmo 139, me lembrei que era seu preferido e agora, por sua causa, acho que é também o meu. Quando soube que você morreu, tive medo; medo desse presente todo: a vida às vezes parece estrondosamente grande, você não acha?… Tenho saudade e pena da gente: éramos só meninas nessa imensidão!

Tenho saudade de pegar o violão no meio de uma tarde cheia listas de exercícios e cantar uma paródia boba pra você. Você sempre foi melhor nos estudos! Ah, e naquele jogo das palavras também! Tenho saudade de pedir para que você cante aquela música que eu gostava: “Jesus, eu quero ficar contigo, quero ser teu amigo…”- combinava tanto com a sua voz; era doce. Tenho saudade daqueles segundos em que a gente pode se demorar se olhando e sorrindo com a boca e com os olhos. No meu sonho você toca teclado e a gente anda descalças pela grama. No meu sonho tem rede, lua no céu e estrelas pra nos enfeitar… Sua mão é pequena perto da minha, já reparou?… No meu sonho faz um dia quente de sol, e você nada comigo, sem medo… Eu pareço forte, você parece forte…Você só poderia ter nascido na primavera!

No meu sonho tem todo mundo junto… Acho que você vai gostar de lembrar que ainda tenho aquele caderno de perguntas, que gostei muito do livro que me deu (apesar de você ter achado o título estranho), e que também tenho um livro pra te entregar qualquer dia, enquanto a gente come alguma coisa. Vou pedir uma sobremesa bem gostosa depois que a gente jantar! Pode comer, não faz mal – aqui no sonho não faz… Vamos ao cinema?…

Quero tanto saber de você… Tenho um monte de coisas pra te contar! No meu sonho a gente se abraça: eu me lembro bem do seu coração batendo no meu peito. Quero te mostrar uma música, escuta só: “Quem poderá fazer aquele amor morrer…Se o amor é como um grão… Morre, nasce trigo…Vive, morre pão…Drão!”.

No meu sonho está tudo bem e sei que agora está. A saudade não escoa, só empoça, pulo nela; me sujo. De cá, ainda me assusto com a imensidão: mas sei que agora você brinca nela. Que bom que aí não há dor. Fico mais tranquila.

@gabifrancoal

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