O que fazer com o final triste?

 

Aquela frase com mensagem otimista, de que as coisas ficam sempre bem no final, é pura bobagem. Os finais injustos acontecem e, por mais que a gente ressignifique, tentando transformar em coisa que faça sentido, a criança que morreu atropelada por um cara que estava dirigindo bêbado, continua morta; uma amiga querida se foi pra sempre aos vinte e seis; Marielle continua com quatro tiros no rosto… E como é que a gente lida com esses finais?… Só consegui pensar em meia dúzia de possibilidades.

1 – Pessoalmente, concordo que a gente precisa ressignificar, mas, pra isso, a gente precisa assumir: foi uma injustiça. Uma das formas de se fazer justiça e lidar com aquilo que é difícil, é assumindo que foi mesmo uma injustiça, que as coisas não deveriam ter sido como foram: só assim a gente consegue tentar fazer algo diferente.

2 – Não tenhamos pressa de nos consolar. Algumas dores não precisam, logo, de conforto: a gente tem que chorar, e chorar. 3 – Depois, é ir para o banho, trocar a roupa e juntar quem a gente ama.

4 – Não espere um final, muito menos um final feliz: o mau existe. A gente precisa separar as coisas que são acidentes das que não são. Às vezes não tem culpados, outras tem e talvez eles nunca se arrependam.

5 – O contrário da injustiça não é justiçamento “olho por olho, dente por dente”, não é matar quem matou o fulano… Se o mau existe, o amor também. E o bem, esse vai sempre depender da gente.

6– “O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da existência em grandes e eficientes vassouradas. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desentupir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez. O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.”

            Pra terminar meu texto, então, eu peço ajuda e continuo com o Brabo: “O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas. Souberam-no e sabem-no todos os grandes santos, jesuses, gandhis e são franciscos, e as madres teresas de todas as Calcutás. O único modo verdadeiramente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dispendioso, frustrante e tremendamente lento dos microsalvamentos: redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez. Os microsalvamentos não são glamorosos, não são definitivos, não dão manchete e não são recompensadores. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empurramos até o topo hoje terá deslizado invariavelmente o morro amanhã, e amanhã haverá outras. Não temos infelizmente o chamado ou a capacitação para salvar o amanhã, o que nos pareceria infinitamente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impensável tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insuportável, irredimível momento”.

@gabifrancoal

 

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