As confissões que deveríamos fazer

Perdi a conta de quantas vezes conversar com alguém que considero me salvou. Às vezes a gente faz um esforço danado pra ninguém perceber alguma coisa, mas essa coisa vai vazando: é uma mão tentando tampar um vulcão gigante. Coisas vazando pra fora, e precipitando pra dentro, numa angústia sem fim – e a angústia é um aperto no peito que dói muito.

Um jeito interessante de resolver esse mal-estar é a confissão*. Chamo de confissão aquela  boa conversa com um amigo ou com alguém que saberia, de fato, o que estamos falando, mesmo que esse alguém não seja tão próximo. Mas o que acontece com frequência é que a gente busca pessoas que pensam mais ou menos como a gente: ou, se você é da igreja, é claro que vai se aconselhar com alguém que seja da igreja, e aí acontece um ciclo… Mesmas visões, mesmos lugares. Se não amplio minha visão, acabo caindo num mesmo lugar. Nós somos treinados, desde sempre, a conversar com gente que pensa mais ou menos como a gente, especialmente quando somos da igreja, afinal, quem é do mundo não vai ser capaz de entender o caminho da cruz que eu deveria escolher.

Quando o assunto é sexualidade, a gente até sente uma paz de alguns dias seguindo aquele conselho da renúncia, do tomar a sua cruz, mas as mãozinhas não conseguem segurar o vulcão por muito tempo, não conseguem. Quando o assunto é nossa sexualidade, parece que tudo o que você faz é procurar uma distração, algo que te ocupe para não pensar mais em coisas que não deveria pensar – e te garanto, de um jeito ou de outro você vai pensar.

Às vezes a nossa melhor oração é aquela de confissão e coragem: “Eu não aguento mais ficar no mesmo lugar, Deus. Eu preciso me dar uma chance…”. Vai demorar um tempinho até você sentir paz, e isso não é um sinal dos Céus, é sua consciência culpada por tomar um caminho novo… Surgem problemas quando a gente resolve experimentar uma nova condição, mas vale muito a pena tentar. Muito. E inclusive, é só assim que a gente encerra ciclos: tentando, esgotando as possibilidades.

De cá, reparo em algumas pessoas tentando segurar o vulcão. Gostaria de abraçar e ouvir cada uma delas. O meu texto é um jeito de dizer que estou disponível para a escuta e para o abraço. Essa dor de um amor proibido, eu já senti**, e quero muito que você seja feliz. Por que é que Deus também não iria querer?…

@gabifrancoal

*A confissão, numa conversa sincera, acaba com os jogos e com os “achismos”. A verdade, como Jesus disse, liberta.

**Parte do meu caminho de confissões: Minha saída do armário, vários textos sobre isso

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