Uma crônica que Feijoo talvez não leia*

(Eu queria pegar na semente da palavra.

Manoel de Barros em Menino do Mato)

Eu acho que encontrei um jeito de descrever Ana: “uma força quase etérea, materializada em palavra”.

O fato é que quando organizei a apresentação de nosso curso, também escrevi: “Ao nos encontrarmos com Feijoo, com quem mais nos deparamos nessa jornada de nos fazermos terapeutas?…”

Cavoucando minha orfandade, me olham com profundidade ela e todas as Anas de minha vida; ela e todos os autores que já li e aqueles que pequei em não ler.

Papai e mamãe estão bem vivos, preciso explicar; é que a orfandade é a melhor expressão que encontro para tentar dizer de uma falta que carrego há longa data. Ora amiga inseparável e de águas mansas, ora inimiga que me ocupa de um jeito fundo e que faz desaguar em mim córgos** imensos que viram corredeiras perigosas.

Dona Ana, que me faz marejar os olhos enquanto rabisco essas palavras, é nossa vizinha mais antiga da fazenda, socorreu meus pais em algumas inexperiências, me ensinou a apalpar com cuidado a massa do queijo sobre o “espremedor”, a usar a forminha e a me livrar dela quando já era hora.

A lembrança é bem viva: “Entra pra dentro, vem comê doce… Vou passá um café pra nóis”… E na voz de Dona Ana há grande parte da doçura do mundo, você também consegue escutar?…

Eu deveria ter meus cinco anos e pedia: “Manhê, vamô lá na DonAna lanchá? – era um jeito honesto de dizer que ela havia matado muitas vezes nossa fome. Era uma criança pedindo para ir até a vizinha ver gente, o que eu tentava resolver todo dia cedinho, com um aceno para o leiteiro na porteira. Filha única, as férias chuvosas de janeiro ficavam ainda mais longas e ficar na fazenda não era lá essas coisas poéticas. A poesia só veio mais tarde porque toda explicação é tardia ao acontecimento (risos).

Outra Ana da minha vida, minha professora de faculdade, me ensinou que não adiantaria falar bonito por aí: “Falar bonito é fácil, Gabizinha, quero ver é atender…”. Analu resolveu grandes faltas em minha vida e depois “me causou” outra profunda porque formar é difícil, credo, mas a verdade é que ninguém passa ileso nessa vida.

Ao escrever isso me lembrei da forminha do queijo – mas seria freudiano demais costurar algum ponto entre essas linhas e vou deixar isso para lá porque preciso contar é da bell hooks. Sim, parece que a escrita “correta” é assim: bell hooks, com letras minúsculas mesmo e a pedido dela.

Quinta-feira foi dia de ouvir Caetano no Rio e ele realmente é ISSO TUDO (com letras maiúsculas). Enquanto esperávamos o tempo passar, Larissa e eu visitamos o Museu de Artes Modernas (MAM) e me deparei com um texto na parede da exposição com citações atribuídas à hooks: ética amorosa, mudança, caráter político do sofrimento, poder emancipatório do amor, senso de comunidade… Achei bonito de ler e anotei para repetir em silêncio e em voz alta, em algum momento oportuno.

O momento oportuno chegou e foi logo ontem, no grupo de estudos que participo como aluna. Feijoo, também conhecida como Ana Maria, falava do poema No azul sereno floresce… e da arte de ser terapeuta e voltar às coisas simples.

Embora não possamos fazer isso de forma professoral (porque perderíamos a espontaneidade), penso que o setting terapêutico é um lugar seguro para ajudar o paciente a performar a amorosidade e a construir ou resgatar o senso de comunidade. Vou insistir com a palavra performance porque ela vem, a propósito, de meus amigos construcionistas e fica difícil abandoná-la.

Achei que cabia falar de bell hooks e um colega, com quem me simpatizo muito, também contou dos meninos da África do Sul que correram todos de mãos dadas para pegar a caixa de chocolate. Logo depois, achei importante contar sobre Rita (nome fictício), minha paciente mais antiga de idade, de psicoterapia e com quem partilho grandemente a experiência do amor na clínica.

Rita é bem viva, mas é comprovado que morreremos qualquer hora. Ou ela, ou eu. E eu com ela, e ela comigo… Nem sei qual a melhor pontuação usar aqui; só sei que é muito fenomenológico tudo isso.

No final da supervisão uma colega nos lembra de outra Ana (dessa vez de sobrenome Quintana) e que também escreve coisas bonitas para gente ler, doer um pouco e tomar um jeito na vida.

“Numa urgência, sem pressa” – contei para a Rita em nossa última sessão e para a Feijoo em alguma conversa informal que essa era até pouco tempo a frase de abertura do Instagram da Ana Quintana.

Vamos fazer um Insta para você, Feijoo?… – Olha o Freud aí de novo, ou o Heidegger, ou o Sartre, ou o Kierkegaard.

Nesse pedido, eu e minha dificuldade em me despedir, mas a verdade é que uma hora o instante feliz acaba e é justamente a finitude que faz caber nele toda a felicidade do mundo, uai.

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* O título (também) é uma estratégia vaidosa para esticar um pouco mais o instante e Feijoo achar em mim alguma sabedoria que a convença e, desse modo, me convença junto. Outra estratégia que costumo usar é comer devagar enquanto bebo porque assim o instante parece se alongar um tiquinho. Como diria a moça do bar, a melhor configuração é a mesa redonda, para gente se olhar bem. Nesse asterisco cabe muito mais: adorei conhecer Myriam, abraçar Bernadete, dançar com a Elaine e confirmar com a Flávia que a sala nove é a melhor de todas.

**Córgo: no mineirês, vem de córrego. Geralmente nas cidades as avenidas são construídas em cima de algumas dessas águas e para atravessar as avenidas é bom que as mãos estejam dadas.

*** Por fim, palavras de Drummond – ele que nos fez sorrir em Copacabana um dia desses: “O presente é tão grande… não nos afastemos… Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

4 comentários sobre “Uma crônica que Feijoo talvez não leia*

  1. Oi, Gabriela. A tua estratégia deu certo, o título me convocou a ler para encontrar o motivo pelo qual eu não leria a crônica. Aliás muito bem feita, ou melhor, muito poética. E também reveladora de toda a tua luta para aprisionar o instante. Felicidade e dor ao mesmo tempo: prazer pelo momento e desprazer pelo fluir. Bjs

  2. Gabriela. Sua alegria nos encanta e o calor de seu abraço permanece. Adorei a proposta e agora fico esperando os tipos de uai no setting terapêutico. beijos

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