
Eu ando com as mãos sujas de barro: tenho pelejado com algumas mudanças. É que, às vezes, eu sofro de distorção da realidade. Está certo que ninguém está isento de ilusões, mas é que faço isso com uma frequência bem significativa. E, aqui, já peço licença pra Fenomenologia.
Em algumas situações eu tenho uma distorção extremamente romântica, dando um caráter especial para coisas que não eram especiais, tentando manter vínculos que nunca passaram de distrações fluidas e atribuindo para algumas relações um tom importante que nunca existiu – ou que existiu apenas pra mim. Às vezes, no meio disso tudo, ainda tenho a ilusão da transparência, da confidência, da reciprocidade da entrega.
Eu tenho a ilusão de que algumas pessoas precisam muito de mim e aí fico esperando que elas também se manifestem porque, na verdade, sou eu que preciso muito delas – e não raro a minha ilusão está em justamente achar que eu preciso muitíssimo delas. Meu Deus, eu sou do tipo de gente que espera que alguém se importe com o que senti! Parece legítimo, não é?… E eu também me perco achando que é, mas sabe qual o problema?… Gasto uma energia enorme com tudo isso… Já aconteceu com você?…
Às vezes, inclusive, me iludo sobre mim mesma, numa distorção ora pejorativa, ora vaidosa sobre quem eu sou. “Certamente” as pessoas que elegi precisam me aceitar (e quem me dera aqui estar falando só da orientação sexual) porque preciso provar que sou boa, bonita e inteligente e, quando algo não dá certo nesse esquema, é porque eu realmente não sou tão boa, bonita e inteligente (e eu acredito muitíssimo nisso).
Já sobre a distorção vaidosa da realidade, sábado mesmo, saindo do banco, fui abordada por uma moça, talvez mais nova do que eu, que estava sentada no chão com um bebê praticamente recém-nascido sobre as pernas, ao que respondi, com certa raiva: “Vai pra sua casa!” – perdendo a noção de que aquela moça poderia ser eu e que a única diferença entre nós é o status econômico (e de afeto, claro) da família onde nascemos.
Eu não sei se é possível vencer as próprias ilusões sozinha; acho que não. Eu tenho tentado fazer isso acompanhada e “o homem morto fala comigo, não do fundo da terra, como seria de esperar, mas do coração das coisas… Sua gentileza é de uma breguice sem confins… Ele não sabe se esconder e está em todo lugar: sua pele os descalços podem tocar, e até as crianças conhecem a sua nudez*.” Hoje, Ele é a moça do banco, e eu sou a mulher no meio da multidão, cujo toque Jesus reconheceu (Marcos 5:24-34). Hoje, de pés descalços, respiro fundo no abraço de quem me conheceu, e, mesmo assim, me amou.
Tenho a sensação viva de que Ele sorri enquanto me abraça e eu sento pra contar quem eu sou, enquanto risco a terra meio envergonhada. E Ele diz que já sabia.
@gabifrancoal
*O trecho é do Paulo Brabo no texto “O apelo da divina carne”. Você consegue ler pelo site www.baciadasalmas.com ou pelo livro “ As divinas gerações e a luta por uma eternidade mais justa”.