Direito à morte e soberania divina, já pensou sobre isso?

 Talvez você não saiba, mas entre as coisas que estudo, pesquiso no doutorado sobre o direito à morte.  Uma das perguntas que me interessam é: “Como podemos morrer melhor?”. Aproveito também pra te perguntar: “Você já pensou sobre as formas que te são oferecidas pra morrer?…” Às vezes parece simples morrer, mas nem sempre acontece assim. Estranho, né?…

Nas minhas conversas informais, aproveito pra colher uma opinião aqui e outra ali. Vou passar a contar, mas acho que a parte que concorda que devemos ter o direito de antecipar a morte em situações de extremo sofrimento, como numa doença incurável e degenerativa, é maior que a parte que discorda. Minha amostra talvez seja tendenciosa, é verdade, mas nos apresenta alguns pontos interessantes.

A parte que concorda com a eutanásia voluntária e com o suicídio assistido (em casos de doenças incuráveis e sofrimento intenso, por exemplo), o faz não por desejo de controle, mas por não querer ampliar um sofrimento. Geralmente são pessoas que viram gente querida acamada por muito tempo. A parte que discorda, quase sempre o faz, aparentemente, por motivos religiosos. Digo aparentemente porque a morte não é bonita mesmo, não, gente, e tudo bem a gente querer viver mais.

Quanto aos argumentos religiosos, todos parecem nascer de um ponto comum: “Deus é soberano e a vontade divina deve ser respeitada”. O fato é que a gente não deixa as coisas correrem o fluxo natural quase nunca: gostei quando, ontem, meu orientador disse que esse raciocínio de deixar as coisas fluírem deveria valer pra quando a gente rebate uma dor de cabeça com aspirina. Quando a gente toma um remédio pra aliviar a dor, por exemplo, também estaríamos impedindo um sofrimento (que talvez tivéssemos que passar na perspectiva de alguma religião) e, portanto, estaríamos impedindo uma evolução naquele momento.  A gente também faz uma cirurgia pra retirar um tumor, enfim… Uma amiga argumentou dizendo que devemos interferir pra favorecer a vida (porque ela nos foi dada), mas isso também não quer dizer que não poderíamos nos dispor dela, contra-argumento.

Pra encurtar a história, só queria apresentar meu principal argumento pró direito à morte – e olha que ele é fruto da minha perspectiva religiosa: a soberania de Deus não é ferida quando eu ou você fazemos ou deixamos de fazer algo. A soberania divina independe de nós; nada foge à ela, nem quando eu ou você achamos que estamos antecipando alguma coisa.

Você achou mesmo que a gente poderia contra essa força de Deus? Mas não vale fazer besteira e colocar a culpa nEle, não, tá?*…

@gabifrancoal

* Acrescentei essa última frase depois de mostrar meu texto pra uma amiga e ela dizer: “É, mas você terá que prestar contas das suas ações.”

 

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